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GRANDES PENSADORES
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Plotino, o filósofo da unidade

Suas idéias instruíram os místicos judeus, cristãos e muçulmanos, inspiraram os pensadores renascentistas, reverberaram na obra de Hegel e constituem, até hoje, uma das mais belas e fecundas produções da inteligência humana.

Por José Tadeu Arantes

No crepúsculo da Antiguidade, estendendo-se do século 3 ao século 6 depois de Cristo, uma sofisticada escola filosófica sintetizou o melhor legado da filosofia grega com múltiplas influências orientais, produzindo uma poderosa e vigorosa visão de mundo. Nela, o espírito, a alma e a matéria são entendidos como instâncias sucessivas, provenientes da mesma Fonte primordial. Esse sistema unitário integra os múltiplos níveis da realidade em um todo coerente e harmonioso. Chamamos hoje tal escola de neoplatônica, porque a filosofia de Platão (427-347 a.C.) foi, de fato, a principal referência na qual se baseou. Mas o monismo neoplatônico resolve e supera os graves problemas suscitados pelo dualismo platônico, com sua dicotomia entre o mundo das idéias e o mundo material.

O neoplatonismo não é uma escola filosófica entre outras, mas a forma final da filosofia grega, que coroou toda a cultura pagã do Ocidente. A importância da contribuição que deu para o desenvolvimento do pensamento humano jamais será suficientemente enfatizada. Assimilado e reelaborado pelos místicos judeus, cristãos e muçulmanos, seu precioso legado instruiu e fertilizou as tradições do monoteísmo semítico, servindo de base para a nascente filosofia medieval. Antes do surto aristotélico do século 13, todo o pensamento ocidental - judaico, cristão ou islâmico - moveu-se, em certa medida, sobre o terreno previamente trabalhado pelos neoplatônicos. Mais tarde, seu influxo inspirou e nutriu o Renascimento. E, depois, alcançou a obra filosófica de Hegel (1770-1831) e outros grandes pensadores, reverberando até os dias de hoje.

Plotino (205-270) foi o fundador e o principal expoente da escola neoplatônica. Sua relevância no Ocidente é tão grande quanto a de Adi Shankaracharya (788-820, conforme a datação mais aceita) na Índia. De fato, o neoplatonismo de Plotino e o advaita vedanta de Shankaracharya constituem as duas maiores expressões de pensamento monista.

Discípulo em Alexandria

A principal fonte de informação sobre a vida de Plotino é uma breve biografia, escrita por seu principal discípulo, Porfírio. Ele teria nascido em Lycopolis, no Egito greco-romano. Aos 28 anos, portanto no início de seu quinto setênio de vida, um impulso interior o levou a estudar filosofia. Dirigiu-se, com esse intuito, a Alexandria.

Situada em um ponto privilegiado do mapa, na confluência do Mediterrâneo com o Delta do Nilo, a cidade era então a capital cultural do mundo. Às suas costas, estava o Egito milenar; à sua frente, do outro lado do mar, estendia-se a vibrante Ásia Menor, impregnada de cultura grega; a ocidente, as ricas colônias fenícias helenizadas do norte da África; a oriente, a Síria, a Mesopotâmia, a Pérsia e a Índia, uma sucessão de territórios cujo extraordinário patrimônio material, intelectual e espiritual havia sido integrado ao mundo grego pelas conquistas de Alexandre. Intersecção de estratégicas rotas comerciais, Alexandria tornara-se também um ponto de encontro de múltiplos influxos civilizatórios, vindo a constituir, em pouco tempo, a mais perfeita síntese do saber antigo. Seu meio milhão de habitantes movimentava-se por um espaço urbano rigorosamente planejado, com largas avenidas, ruas que se cruzavam em ângulos retos, amplos espaços abertos e aprazíveis áreas residenciais.

O centro intelectual dessa dinâmica metrópole era o Museu, construído entre 300 e 290 a.C., durante o reinado de Ptolomeu I. Ao contrário de muitos museus de hoje, em geral simples coleções de objetos antigos, o Museu era uma entidade viva, dedicada à pesquisa e à criação nos diferentes domínios da cultura. Seu nome deriva da palavra musa, que designa cada uma das nove deusas que presidiam as chamadas "artes liberais" na mitologia grega. As instituições que mais se assemelham a ele na atualidade são as universidades. Os pesquisadores acreditam que dele faziam parte um observatório astronômico, um jardim botânico e um jardim zoológico. Ao seu lado, erguia-se a famosa Biblioteca, que, em meados do século 1 a.C., no período de maior apogeu de Alexandria, chegara a reunir cerca de 700 mil volumes (esse magnífico tesouro foi, posteriormente, destruído por sucessivos incêndios criminosos, provocados por romanos, cristãos e muçulmanos, pois a ignorância não escolhe etnia nem credo, oferecendo-se com generosidade a todos os interessados).

Em Alexandria, Plotino era, portanto, o homem certo no lugar certo. Mas a filosofia alexandrina de então havia perdido sua vitalidade, enveredando por um intelectualismo pedante e estéril. O choque com esse pensamento esclerosado frustrou as expectativas do jovem aspirante, levando-o a um estado de completa depressão. Foi em tal momento crítico que um colega o encaminhou a Amônio (175-242), um dos personagens mais misteriosos da história do conhecimento. De origem simples, esse homem dedicara-se no passado ao trabalho braçal – daí seu cognome, Sacas, derivado da palavra grega sakkoforos, que significa "carregador de sacos". Depois, abriu uma escola filosófica, mas nunca escreveu nada e manteve suas opiniões em segredo, comunicando-as apenas a um restrito círculo de discípulos. Estes sustentavam que o mestre conseguira reconciliar os pensamentos divergentes de Platão e Aristóteles. Diz Porfírio que, ao encontrá-lo, Plotino afirmou: "Este era o homem que eu estava procurando".

Mestre em Roma

Plotino passou 11 anos no discipulado de Amônio, que fora também o professor de Orígenes, o primeiro grande filósofo cristão. Depois, desejando conhecer em primeira mão as filosofias orientais, acompanhou a expedição militar comandada pelo imperador romano Gordiano III contra os persas. Sua intenção era ir além da Pérsia e chegar à Índia. Mas Gordiano foi assassinado por seus soldados na Mesopotâmia e o próprio Plotino escapou por um triz, fugindo com dificuldades para Antióquia, na Síria.

Aos 40 anos, o filósofo entendeu que chegara o momento de ensinar. E estabeleceu-se em Roma, no coração do império, reunindo à sua volta um amplo círculo de discípulos. Este incluía a nata da intelectualidade e da aristocracia romanas, inclusive vários membros da família imperial. Pensando em dar um destino útil a suas relações privilegiadas com o imperador Gallienus, Plotino propôs-lhe a criação de Platonópolis, uma cidade baseada no ideal político de Platão. Mas o projeto foi derrubado pelo Senado, que o considerou dispendioso demais.

Vegetariano, austero, Plotino desfrutava de grande prestígio pessoal. Foi chamado a arbitrar diversas disputas entre cidadãos notáveis e tornou-se tutor de vários órfãos da aristocracia romana. Segundo Porfírio, ele era capaz de conhecer o caráter e o futuro das pessoas por meio de sua fisionomia. E seus contemporâneos lhe atribuíram numerosas experiências sobrenaturais. A mais famosa delas teria sido vivenciada no templo de Isis, em Roma, quando, ao conjurar seu "anjo da guarda", o filósofo recebeu a visita de um "deus", em lugar de um simples "anjo".

Em seu último período de vida, Plotino sofreu os efeitos de uma doença deformante, talvez a lepra. Esse infortúnio o levou a dispensar os discípulos e refugiar-se em sua casa de campo, na Campania, Itália. Lá morreu, aos 66 anos de idade, em 270 d.C.. Exalou o último alento nos braços de seu médico e discípulo Eustóquio. Suas palavras derradeiras: "Tente unir o deus que há em você com o Divino que existe em tudo".

A visão de mundo neoplatônica

O sistema neoplatônico é, ainda hoje, um poderoso instrumento para a compreensão da realidade. Tal qual foi concebido por Plotino ou com as modificações e acréscimos que recebeu de seus discípulos e sucessores, como o sírio Iâmblicos, ele nos ajuda a perceber, para além da fragmentação que parece caracterizar o mundo, a unidade profunda que, de fato, o constitui. Diz ele que os inumeráveis entes e fenômenos provêm de um princípio único - absolutamente simples e perfeito - que engendra, por emanação, tudo o que existe.

Essa unidade primordial não é um objeto - uma coisa determinada, limitada, separada. Por isso, nenhum predicado lhe cabe. O homem não consegue alcançá-lo por meio dos sentidos, da imaginação ou do pensamento. E, a rigor, não deveria sequer nomeá-lo. Mas a palavra Uno (En, na língua grega) é utilizada, para designar sua completa simplicidade. Imperceptível, inimaginável, inconcebível, o Uno só pode ser acessado por meio do êxtase, no mais alto estado de contemplação mística. Porfírio disse que, por quatro vezes, Plotino teve essa experiência, ascendendo ao Uno e depois retornando ao corpo.

Para explicar a transição do um ao múltiplo, os neoplatônicos recorreram à metáfora da luz. Assim como a luz, sem deixar de ser luz, decai em intensidade à medida que se afasta da fonte luminosa, também o processo emanatório principiado pelo Uno teria constituído, sucessivamente, camadas cada vez mais esmaecidas de realidade. Primeiro, o Espírito, sede das idéias universais. Depois, a Alma do Mundo, que anima todo universo e engendra as almas individuais. Finalmente, a Matéria, que compõe o mundo sensível. Dos sutilíssimos estratos espirituais à mais densa materialidade, a realidade apresenta-se, assim, como um todo unitário, porém hierarquicamente estruturado: uma grande corrente do ser, ao mesmo tempo única, mas constituída por diversos elos.

O homem contém em si todos esses níveis. Por isso, pode se identificar com qualquer um deles. A filosofia o levaria a desapegar-se da tirania dos sentidos para ascender às instâncias superiores da realidade, configurando, portanto, uma avançada disciplina espiritual.

Fragmentos de Plotino

Plotino só começou a escrever aos 49 anos, três setênios depois de ter iniciado o estudo da filosofia. Quando escrevia, ele o fazia de um só fôlego, sem dar atenção ao estilo e à ortografia. O apuro de seu texto se deve à cuidadosa edição de Porfírio, que reuniu os escritos do mestre em seis conjuntos, de nove tratados cada um. Estes receberam, por isso, o nome de Enéadas. Os fragmentos sobre o Uno, que reproduzimos a seguir, fazem parte da tradução integral de 12 dos 54 tratados, realizada por Américo Sommerman (Tratados das Enéadas, de Plotino, Polar Editorial):

"Antes de todas as coisas, tem de existir o Simples, diferente de tudo o que dele advém, auto-existente, e, no entanto, capaz de estar presente nessas outras ordens."

"Não é possível conhecê-lo ou falar a respeito dele. Ele é descrito como ‘Além do Ser’ ou ‘Sobre-Ser’. Pois, se ele não fosse algo simples, além de toda coincidência e composição, não seria o primeiro princípio."

"Se o Primeiro é perfeito, o mais perfeito entre tudo, e é o princípio de todo poder, tem de ser mais poderoso do que todas as coisas, e todos os outros poderes devem imitá-lo na medida de sua capacidade."

"Assim, quando algo chega à perfeição, vemos que começa a gerar, pois não é capaz de permanecer fechado em si mesmo e engendra algo mais."

"O Uno é todas as coisas e não é nenhuma delas. Ele é o princípio (archê) de todas as coisas."

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