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ENTREVISTAS
As experiências e as reflexões de quem trabalha para a evolução de pessoas, empresas e organizações.
 
Pela qualidade nas relações
Por Juliana Tavares

O caos e a confusão do mundo externo não incomodam o australiano Ken O'Donnell, atual presidente para América do Sul da Organização Brahma Kumaris (BK) – cujo foco é o desenvolvimento humano.

Essa alta capacidade de controle interno, porém, não é uma qualidade nata de O'Donnell, que confessa tê-la desenvolvido depois de ter sido apresentado à prática da meditação Raja Yoga, que conheceu num pequeno centro da BK, em Londres – um momento que ele destacou como um marco em sua vida.

Também pudera: seu rumo profissional mudou completamente depois deste episódio. Formado em Ciências Aplicadas em Sydney, na Austrália, O’Donnell trabalhou por sete anos em Pesquisa e Desenvolvimento, principalmente nas indústrias de alimentos e cosméticos. No final dos anos 1980, focou sua carreira para a Gestão de Qualidade Total, área que até hoje demanda por profissionais capacitados. Ao contrário do que se poderia prever, contudo, o que chamou a atenção dele para a área foi a possibilidade de discutir a qualidade das relações de trabalho – e não apenas a qualidade do produto ou do serviço oferecido pela corporação. Essa pequena mudança no foco de seu estudo fez com que ele passasse a levar em conta tanto as práticas de gestão, como as atitudes e comportamentos necessários para fazê-las funcionar de verdade.

Ao conhecer diferentes culturas numa turnê que realizou logo após terminar os seus estudos, O’Donnell abriu os olhos para a semelhança entre os seres humanos. Em suas próprias palavras: "as diferenças culturais entre os povos representou para mim algo bastante superficial. Constatei, então, que os problemas que enfrentamos e as respectivas soluções devem ser universais."

Foi dado, então, o ponta pé inicial para a jornada que viria a seguir. Durante esta viagem, O’Donnell conheceu a BK, foi apresentado à meditação Raja Yoga e percebeu o quanto a prática poderia ajudá-lo a se desenvolver, inclusive na carreira.

Hoje, além de ser o principal executivo da BK na América do Sul, O’Donnell é consultor internacional nas áreas de Qualidade, Desenvolvimento Organizacional e Planejamento Estratégico. Nesta entrevista cedida gentilmente ao The New Life, O'Donnell fala sobre liderança baseada em valores, sugere alternativas para melhorar o desempenho dos colaboradores nas corporações e explica como a espiritualidade pode fazer parte das organizações. Também enfatiza que é o respeito aos valores internos que nos faz conquistar a felicidade interior. Boa leitura!

Quais os principais objetivos e desafios na coordenação da BK na América Latina?
A BK não procura converter ninguém. Nosso objetivo é fazer com que as pessoas se tornem melhores seres humanos, independentemente de sua crença religiosa ou espiritual. Neste sentido, não estamos preocupados com o proselitismo. Aqueles que em sua própria busca atingirem a fase em que eles sentem que precisam da experiência da meditação virão para nossas palestras, cursos e seminários. Neste sentido, o crescimento tem sido extremamente orgânico, com uma coisa levando à outra. Temos tentamos tornar cada unidade autossuficiente em termos de recursos humanos e financeiros, de modo que não há muito movimento entre os lugares. A outra coisa é que tratamos de incentivar um modelo de gestão horizontal. Desta maneira, cada coordenador e sua equipe toma a maioria de decisões localmente. Cada lugar desenvolve seus próprios programas com base em material didático uniformizado.

Os estudos, a educação, a ciência ocidental nos preparam para vivermos no mundo externo. Como trazer o foco para o controle do mundo interno? Que benefícios isso traz para o ser humano e para o mundo?
Quando olhamos para fora vemos o caos e a confusão. Vemos níveis crescentes de complexidade e imprevisibilidade. Tudo isso é apenas a reflexão coletiva do que acontece dentro de cada indivíduo. Nesse nível, a realidade que me rodeia como um indivíduo é grandemente criada e mantida dentro da minha própria cabeça. Isto não significa que nós criamos os outros atores no nosso jogo ou as formas físicas em volta. Significa que nós criamos nossa própria experiência de tudo. Essa experiência não existe em qualquer lugar, exceto dentro de nossas próprias mentes e percepção. Portanto, se eu quiser mudar alguma coisa no mundo exterior, eu tenho que mudar a atitude ou a percepção de que a sustenta. Conforme eu torno meu mundo interior mais calmo e consciente, isto tem um efeito imediato sobre o mundo em que eu participo.Na verdade, não existem dois mundos. Há apenas uma experiência com um lado externo e outro lado interno.

De que maneira esse tema poderia ser debatido pelas empresas como forma de melhorar o desempenho de seus colaboradores?
Qualquer mudança em uma organização se inicia com sua gente e a maneira como as pessoas se relacionam entre si. A relação é baseada no tipo de comunicação que se têm. Esta, por sua vez, está ligado à forma como se relacionam consigo mesmas e quanto de significado eles conseguem extrair do que elas estão fazendo e como eles o compartilham. O significado compartilhado é a base de um grupo altamente motivado de pessoas. Elas têm compreensão mútua e tomam decisões com mais rapidez e confiança. Por exemplo, em uma empresa de pintura em que estávamos trabalhando, todos poderiam se relacionar mais com a ideia de adicionar cor à vida das pessoas em vez de estar apenas fabricando tintas. No nível pessoal, cada mudança tem algum significado mais profundo para a pessoa. Se pudermos entender a razão por traz das coisas e comunicá-la com precisão para os outros, com certeza conseguiremos envolver as pessoas. As pessoas não compram o que fazemos, mas o que acreditamos.

O que é a liderança baseada em valores? Quais vantagens e desafios ela traz para as corporações?
Quase todas as organizações têm uma declaração sobre a sua missão, visão e valores. Muitas vezes, elas são apenas exercícios de autopromoção e sem relação com o porquê fazem o que fazem e o que eles podem contribuir para o mundo ao redor. Como a palavra indica, os valores são o que dão valor a uma empresa, uma equipe ou a um indivíduo. Eles não devem ser apenas frases vazias impressas em cartazes agradáveis nos elevadores. Apenas a prática de três ou quatro valores-chave pode trazer uma enorme diferença para uma organização. Por exemplo, a confiança. Ela tem tantas dimensões... Eu preciso confiar em mim mesmo, em meus colegas, meu chefe, meu trabalho, no futuro que eu tenho e no trabalho que eu faço. Da mesma forma que uma relação pessoal pode quebrar por causa de uma falta de confiança, quantas coisas são afetados em um contexto organizacional pela falta de confiança? Mesmo sendo tão importante, quantos cursos existem sobre como construir a confiança? Outro valor mais prático, por exemplo, é a inovação. Se a inovação é o motor, a criatividade é o combustível. A questão, portanto, é como construir uma atmosfera onde as pessoas estão preparadas para serem criativas, para irem além de suas zonas de conforto e fazerem declarações ousadas sobre as possibilidades. Desta forma, os valores são como o campo onde a produtividade e até mesmo a responsabilidade sociail se enraizam e crescem.

Como um líder pode inspirar outras pessoas a se unirem numa jornada?
A grande pergunta para os líderes é: as pessoas ficam mais felizes quando eu chego ou quando eu vou embora? O impacto que tenho sobre os outros, se eles celebram a minha presença ou ausência diz muito sobre a minha capacidade de lidar com as pessoas. Conheço minha gente? Estou preocupado com eles e como ajudá-los a se desenvolver? Estas são perguntas que os líderes se perguntam. Elas não são as que os chefes comuns fazem. Em outras palavras, algumas vezes, eu tenho que ser um supervisor – vendo as coisas de cima. Se houver um incêndio, não é o momento de ter uma reunião para pedir a todos como apagá-lo. É a hora de mostrar força e clareza. Eu tenho que ser um "intervisor" a maior parte do tempo.Isso significa que eu estou vendo as coisas junto com os outros e partilho ideias e feedback. Mas eu tenho que ser um "intravisor" sempre. Isso significa que eu me vejo e sei como eu influencio os outros, além de saber fazer mudanças quando necessárias.

Em uma de suas palestras, você explica que para mudar organizações é necessário envolver indivíduos no nível pessoal. Como promover este impacto em um ambiente que se esforça para ser impessoal e competitivo?
Liderança é pessoal. Você não pode aprendê-la em um livro. Os que lhe dão o título de líder são os que você lidera. Em todas as equipes de alto desempenho você vai ver alguém que entendeu a arte da liderança no nível pessoal: como as diferenças de cada um e suas especialidades têm de ser levadas em conta e como desenvolvê-las para que cada um está dando o melhor que pode. Em 2009, o Google realizou um estudo de suas práticas de gestão própria, com 100 variáveis e 10.000 funcionários. No que é provavelmente uma das empresas mais inovadoras, tudo no mundo de hoje, as três características principais eram todas pessoais e colaborativas:

  1. O líder é um bom coach de sua equipe.
  2. Empodere sua equipe e não faça micro-administração.
  3. Manifestar interesse no sucesso dos membros da sua equipe e seu bem-estar.

Quais são, na sua opinião, os principais desafios das empresas nos dias de hoje?
Estamos vivendo em um mundo de incertezas permanentes. Fatores ambientais, sociais, políticos e econômicos contribuem para um mundo complexo que quase ninguém realmente entende. Nesta paisagem caótica e confusa, provavelmente a melhor coisa é ter uma bússola. As velhas regras baseadas em comando e controle não parecem funcionar mais. Para ter mais agilidade é extremamente importante que as burocracias sejam simplificadas. Se o tempo é o fator mais estratégico no momento, a capacidade de tomar decisões rápidas é fundamental. Na atual complexidade, não há uma pessoa, um super líder que tem todas as respostas. Assim, é imprescindível trabalhar em equipes de maneira que a sabedoria coletiva floreça. Os líderes têm de estar fazendo este tipo de coisas.

Como lidar com as incertezas em momentos de crise econômica?
Não há respostas fáceis. Mesmo assim, há um grande número de clientes lá fora. Os consumidores, a sociedade e o meio ambiente, todos sofrem as consequências, boas ou más, do que fazemos.Provavelmente, a palavra-chave é a relevância. Quão relevante é o nosso produto ou serviço no mundo como ele é hoje? Quão relevantes são as ações que fazemos como uma empresa para a sociedade da qual tomamos o nosso sustento? Lembro-me de trabalhar com uma das maiores empresas de alimentos do mundo em um mercado muito difícil. Eles fizeram um grande esforço para tornar cada um de seus produtos socialmente relevante.Eles não estavam pensando sobre o que seus concorrentes faziam, mas na relação simbiótica com os seus consumidores em torno do que é significativo para eles. Eles tiveram um tremendo sucesso na região do mundo onde eles estavam operando.

Como conquistar a felicidade interior? É possível estendê-la aos nossos papéis profissionais?
Uma das grandes ilusões que temos de acabar é de separar nossas vidas em compartimentos. Em um deles, sou uma pessoa da família. Num segundo, sou um profissional. Num terceiro, sou um buscador espiritual. Num quarto, desempenho meu papel social com amigos e parentes. Eu não sou quatro pessoas diferentes. Eu sou apenas uma. Se eu sei que tenho um conjunto de valores internos que não muda com as circunstâncias, que a minha identidade espiritual está intacta, não importa o que aconteça, desde este espaço interior, posso lidar com tudo o que acontece onder quer que esteja.

Qual é a sua opinião sobre o trabalho e a busca pela essência e a espiritualidade. Como equilibrar dois fatores, aparentemente, tão contraditórios e inclui-los no dia a dia das corporações, quando o foco dos negócios ainda é a lucratividade?
A motivação real é a conexão sagrada entre quem eu sou internamente e o que faço no mundo. Ambas as rodas – o interno e o externo – giram em torno desse eixo. Se o acesso não é forte o suficiente, nenhuma das roda pode realmente virar. Não há nada na espiritualidade que diz que eu não deveria ter o retorno justo do que eu faço. A verdadeira prosperidade é ter o suficiente para fazer as coisas que preciso fazer para viver o meu propósito mais profundo. Se houver um senso de propósito real, e posso associar meu trabalho com ela, a prosperidade me seguirá como uma sombra.Eu sempre terei o suficiente, porque o próprio universo conspira para me ajudar a viver essa finalidade. A prosperidade e a espiritualidade são contradições somente se houver ganância.

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