Defensora de diferentes modelos de recrutamento e seleção, remuneração e gestão, a diretora executiva de RH da Telefonica Brasil desde 2005, Françoise Trapenard, pode ser considerada uma filósofa do mundo empresarial. Alguém que questiona, mas que também sugere alternativas para o status quo corporativo. Isso porque, segundo ela mesmo diz, a continuação do modelo que hoje conhecemos de gestão pode tornar a vida no mercado de trabalho insustentável e, principalmente, impraticável.
A executiva conheceu tarde a realidade corporativa. Até os 28 anos, estava decidida pela carreira acadêmica. Formada em administração de empresas pela FEA-USP, fez pós-graduação em Gestão pela ESSEC (França) e mestrado em Filosofia pela Université de Paris IV (Sorbonne,França). Imprevistos, porém, impediram-na de continuar na Europa. De volta ao Brasil, decidiu que era hora de arriscar outros caminhos e, assim, foi para a área de exportação da International Paper.
O sonho de tocar um projeto e vê-lo realizado, porém, a fez mudar novamente. Em suas próprias palavras, queria algo que a permitisse “ter um pé no negócio e outro na construção de um futuro dentro da empresa”. Por essa razão, decidiu voltar a sua carreira para a área de Recursos Humanos. Atuou na Asea Brown Boveri e, há 11 anos, está na Telefonica – pela qual teve uma experiência internacional na posição de diretora corporativa de desenvolvimento de executivos no headquarter da empresa, na Espanha.
Entre uma viagem e outra, a executiva atendeu à equipe do portal The New Life para falar sobre os principais desafios na área, hoje e no futuro. Leia os principais trechos da entrevista, a seguir:
Qual é, na sua opinião, o grande desafio atual do profissional de RH das empresas? São dois os desafios. Hoje, o maior desafio do RH é a adequação entre o processo de definição estratégica da empresa e sua capacidade de execução, ao mesmo tempo em que estimula a realização das pessoas a partir das oportunidades de desenvolvimento, dos modelos de remuneração, e da cultura e clima organizacional. O RH tem um papel fundamental para a adequação desse ambiente interno. No entanto, quando olho para o futuro, vejo outro desafio eminente para o profissional de RH: as ferramentas e metodologias implantadas e que fizeram o nosso sucesso até aqui já não são aquelas que usaremos e precisaremos na empresa do século XXI. As redes sociais, as mudanças de geração, as mudanças sociais deste mundo globalizado gerarão mudanças na hierarquia e nas relações de trabalho. Para mim, isso significa que o perfil do profissional de RH será essencial e fundamentalmente diferente daquele que a gente construiu até aqui. Será preciso encontrar outros caminhos que vão sustentar essa nova empresa e esse novo jeito corporativo de trabalhar.
Há alguma evidência de como seria esse novo método de trabalho? Por um lado, é preciso entender como se dá a Sustentabilidade, com “s” maiúsculo, dentro das corporações, de modo que ela seja incorporada por todos os grupos de interesses da empresa. No âmbito do Recursos Humanos, por exemplo, isso implica em mudanças no atual modelo de recrutamento e seleção, de modo a permitir que sejam aproveitados pela empresa os “talentos” , que são as pessoas com as melhores oportunidades, que fizeram as melhores faculdades, mas também aquelas pessoas que lutam por uma inclusão social. Hoje, ao contrário, há um paradoxo: embora as empresas ofereçam programas de inclusão social para um determinado grupo da sociedade, ela não está aberta para oferecer a esse mesmo grupo uma oportunidade de trabalho. Outro exemplo: que sentido faz gastar uma fortuna na seleção dos trainees? Selecionar 20 candidatos de milhares que se inscreveram não ajuda o país e nem a juventude a encontrar seu caminho no mundo do trabalho. Já existem experiências de uso do dinheiro do processo de seleção para promover projetos de inclusão, ajudando os jovens, por exemplo, na sua escolha profissional, organizando oficinas de orientação de carreira, de adequação de currículo, de entrevistas. Desta forma, além de preparar os jovens para o mundo, a empresa também está fazendo um processo indireto de seleção para suas vagas. Esse tipo de contradição é que precisará ser resolvida, assim como os atuais modelos de remuneração. Os sistemas de metas, bônus, remuneração e reconhecimento enfatizam o indivíduo. Se um ganha, o outro deixa de ganhar. No futuro, será cada vez mais difícil identificar se o resultado é fruto do profissional A, do profissional B ou do trabalho de ambos. Será cada vez mais difícil que uma única pessoa dê conta das inúmeras complexidades que estarão coexistindo na obtenção dos resultados tangíveis e intangíveis da empresa.
Como assim? O grande dilema que o mundo corporativo está vivendo hoje é que ele está sendo forçado a incluir variáveis não decodificadas pelo capitalismo. Quando se fala de sustentabilidade, por exemplo, fala-se de incorporar valores intangíveis ao mundo dos negócios. Apenas para exemplificar de maneira bem simples, cito o caso da utilização de mão de obra infantil em processos produtivos. Esse intangível ético, que é básico, ainda não está resolvido. Tanto é que ainda hoje empresas são surpreendidas com a notícia de que um de seus fornecedores está utilizando mão de obra infantil e isso impacta muito negativamente em sua reputação. Não basta se preocupar com o preço e a entrega do produto com qualidade e prazo. Aspectos intangíveis como esse estão sendo incluídos no modelo de negócio de forma ainda incipiente, apesar de progressiva.
Na sua opinião, essa preocupação com os aspectos intangíveis, hoje, é frequente entre as empresas? Sim, embora ainda estejamos nos primórdios desta evolução. Primeiro se falou em responsabilidade social e, à medida que o discurso foi ganhando força, a noção migrou para a sustentabilidade. O que eu vejo, na verdade, é que pouco a pouco está ficando claro para o mundo que para a Sustentabilidade ser a premissa do negócio será preciso rever o capitalismo tal como o conhecemos hoje. Isso porque esse sistema gerou um mundo baseado no consumo, que estimulou o crescimento das empresas, do mercado financeiro e o ganho dos acionistas. No entanto, o planeta está em desequilíbrio, e muito deixamos para trás no aspecto social. Para que o lucro de uma empresa seja sustentável para todos os stakeholders, é preciso inserir outras variáveis na equação de negócios que a tornam bem mais complexa. No futuro, as empresas deverão estender os seus tentáculos para muito além dos seus portões. O mundo terá muito a contribuir – e a sociedade, a agradecer.
E qual será o desafio dos profissionais diante desta nova realidade? Estamos avançando para um mundo hiperconectado, de vidas digitalizadas e em rede com acesso a um sem número de informações. Neste contexto, cada vez mais eu acredito que precisaremos de pessoas com as seguintes características: empreendedorismo, inovação e coletividade. Diante de toda a complexidade do mundo contemporâneo, será preciso descobrir novos caminhos e ter determinação para agir e inovar. É aí onde o empreendedorismo e a inovação fazem tanta diferença. Além disso, num mundo tão complexo, não bastará olhar apenas os dados financeiros. Será preciso alta capacidade de projeção de cenários, além de observar o impacto social do negócio no futuro. Estamos migrando do mundo Malboro, do ‘eu sozinho num cavalo fazendo a diferença’, para um ambiente com equipes de alta performance. Isso porque, como eu já disse, ninguém dará conta sozinho, de decodificar toda a informação disponível para definir o rumo da ação. O modelo de remuneração variável, portanto, deverá deixar de ser um modelo de meritocracia individualizada, para ser um modelo coletivo, que realmente premia a equipe.
Além de mudar a gestão, como fica o clima organizacional? Esta é uma excelente pergunta – como será o ambiente de trabalho desta empresa sustentável e hiperconectada? A natureza humana é relacional e coletiva. Precisamos nos relacionar inclusive para entender mais de nós mesmos. A qualidade deste relacionamento dentro da empresa é o que chamamos “clima organizacional”. Hoje ele está muito baseado na ação direta do gestor da área e num modelo ainda muito dependente da hierarquia. Acredito que aqui também veremos grandes mudanças no futuro, com uma co-responsabilização e uma co-criação de toda a equipe, muito mais em sintonia com valores das novas gerações. O importante é o RH ficar antenado com estas mudanças sociais e entender que a empresa não é uma ilha – o que acontece fora, impacta dentro. É só uma questão de tempo. Quanto mais atentos estivermos para decodificar as mudanças externas, melhor preparados estaremos para implantar as mudanças internas.
Tem algum tema que eu não perguntei e que você gostaria de explorar? Tem sim. A sustentabilidade do trabalho. É muito interessante como este tema está ausente de tudo o que eu li a respeito de sustentabilidade. E, em meu ponto de vista, a sustentabilidade do negócio, da sociedade e do meio ambiente nasce de um trabalho que gere realização pessoal e financeira para o indivíduo. É por isso que eu acredito que uma agenda de sustentabilidade deva começar atuando sobre o nível de estresse no trabalho. A experiência do trabalho está ficando cada vez mais "insustentável" (perdoe-me o trocadilho). Se o melhor que as pessoas têm a dar para uma empresa é o seu conhecimento, a sua energia e a sua criatividade, torna-se imperativo gerenciar o nível de estresse para que ele não impeça que este melhor floresça. Mas o que eu tenho visto e escutado não é bem isso. A lógica de fazer mais com menos está levando todos a níveis impossíveis de estresse e aí as decisões tomadas não são necessariamente as mais inteligentes, a energia se sustenta debilitando a saúde e a criatividade se transfere para programas de inovação que a tentam estimular. Como não somos capazes de calcular o custo deste estresse, não conseguimos chamar a atenção para a urgência em se tratar deste desequilíbrio interno que tanta força drena de nossas empresas. Gostaria de convidar a todos que hoje trabalham com sustentabilidade a se concentrarem neste aspecto interno e a ajudarem suas empresas a entenderem que esta jornada tem que começar dentro de casa. |