Adaptar-se às circunstâncias e tirar o melhor proveito de todas elas. Essa flexibilidade para lidar com o novo é uma característica marcante do atual diretor de RH para a América Latina da Syngenta, José Luis Weiss – a começar pela própria formação profissional. Weiss é formado em Engenharia de Mineração e mestre em Engenharia Ambiental, ambos pela Universidade da Califórnia, em Berkeley. Foi o responsável pela implementação da certificação ISO 14000 numa das fábricas da Coca-Cola no Brasil – a primeira da marca a receber o certificado em todo o mundo.
Não tardou para que o executivo fosse também convidado para assumir a gestão da qualidade total da empresa. Se, num primeiro momento, a procura pela excelência dos produtos e serviços passou a ser o seu foco para aumentar a competitividade e a lucratividade da corporação, por outro mostrou que para alcançar resultados satisfatórios, mais do que modificar processos, seria também necessário transformar as pessoas – estimulando-as a trabalhar em equipe, tornando-as motivadas em suas funções e instigando-as a se aperfeiçoarem. A gestão de pessoas passou a ser um caminho natural a seguir.
Profissionais acostumados a lidar com processos poderiam ter dificuldade em voltar a atenção para a gestão do capital humano. Não para Weiss, cuja busca interior pelo autoconhecimento – iniciada desde a juventude com a prática no espiritismo – ensinou-lhe um grande respeito pelo próximo. Não demorou para ser convidado a assumir a diretoria de RH de um dos negócios da Johnson & Johnson e, desde setembro passado, está na Syngenta.
Hoje, inspirado por outras fontes do saber (hinduísmo, budismo, antroposofia, teosofia, pensamento integral, entre outros), Weiss se dedica a levar a espiritualidade ao mundo corporativo.
Nesta entrevista ao portal The New Life, ele revela caminhos percorridos, aprendizados conquistados e diz que a jornada ainda é longa, mas certamente, reserva-lhe gratas surpresas. Leia os principais trechos, a seguir:
Como se deu a mudança na sua carreira para a diretoria de RH depois de uma longa jornada cuidando de meio ambiente e controle de qualidade? Ao contrário do que seria para algumas pessoas, se deu da maneira mais natural possível. Desde muito cedo realizo, paralelamente à minha profissão, um trabalho em busca do autoconhecimento que é muito profundo. Isso teve início quando passei a me interessar pelo espiritismo e a estudá-lo com mais afinco. Conforme o meu autoconhecimento aumentava, ia bebendo conhecimento de outras fontes religiosas e filosóficas, como o hinduísmo e a antroposofia. Todo esse processo me permite entender melhor o outro sem julgamentos. Uma vez isso posto, aceitar que o outro tem o direito a não ter as mesmas ambições que você, por exemplo, fica mais fácil. Não por acaso, ofereço palestras que pretendem abordar a espiritualidade nas corporações.
A espiritualidade, embora não tenha nada a ver com a religião, ainda é vista com certo preconceito nas organizações... De fato assim acontece. Mas eu não enxergo a espiritualidade e o meio empresarial como coisas distintas. Eu os enxergo como partes integradas e complementares – e tornar isso possível faz parte da do meu propósito de vida. É preciso deixar claro que, ao se tratar da espiritualidade nas organizações, está se pretendendo desenvolver a consciência do grupo de pessoas nelas inseridas – e não tem nada a ver com o doutrinamento a partir de dogmas rígidos das religiões. A espiritualidade está relacionada à capacidade do ser humano e da organização se entenderem e se enxergarem no mundo. Debaixo deste conceito amplo da espiritualidade, estamos cuidando da capacitação de lideranças e do desenvolvimento da equipe que, indiscutivelmente, hoje, são fatores cruciais para construir uma cultura organizacional de crescimento que não visa apenas ao lucro. Fora isso, o autoconhecimento é uma busca que cada um deve realizar de acordo com a sua própria vontade. O desenvolvimento é, no fundo, uma porta que só abre por dentro: precisa partir da pessoa.
Qual é o papel dos líderes nesta busca pela espiritualidade nas organizações? O líder tem o papel de incentivar o desenvolvimento da sua equipe – mas a busca pelo desenvolvimento tem muito a ver com o propósito de vida de cada pessoa, seus valores e crenças limitantes e estimulantes. Há profissionais que simplesmente não querem se tornar líderes – e tudo bem que seja assim. Na minha opinião, a busca pelo desenvolvimento ocorre por meio de experiências de vida – e isso pode ocorrer de diferentes maneiras. As pessoas crescem em projetos, em funções novas, em crises ou quando se sentem desafiadas. O que é preciso ter em mente, e as organizações devem estar preparadas para isso, é saber quando proporcionar desafios oportunos na carreira de cada colaborador. Contar com a ajuda de processos de mentoring ou coaching pode estimular o desenvolvimento. Outra maneira de contribuir com o aperfeiçoamento dos profissionais, mas que a meu ver tem menos impacto, embora seja também importante, são os treinamentos. As organizações precisam tomar conhecimento do seu importante papel na transformação da sociedade – e por isso o discurso entre sustentabilidade e gestão de pessoas é cada vez mais presente – porque desses dois fatores depende a sobrevivência das empresas e das próximas gerações.
Recentemente, você fez um retiro em busca de autoconhecimento. Como foi essa experiência? Minha decisão de passar por essa experiência foi uma inspiração que tive depois de ler o livro "Presença – propósito humano e o campo do futuro", de autoria de Peter Senge, C. Otto Scharmer, Joseph Jaworski e Betty Sue Flowers. Nele, os autores dão uma verdadeira aula de como devemos nos preparar para as mudanças que estão acontecendo no mundo. Aprendizagem, pensamento sistêmico e modelos mentais são tratados pelos autores de maneira intensa e senti muita vontade de vivenciar aquilo. Assim, com a ajuda de um amigo, optei por participar de um programa que se passou num lugar muito especial no Colorado, nos EUA – uma região isolada, conhecida e utilizada por indígenas locais como lugar para o desenvolvimento espiritual há 20 mil anos. Durante a semana de isolamento eu jejuei, e passava o tempo me integrando e harmonizando com a natureza buscando estar em um estado mais profundo de presença possível. Ao todo, passei por um tempo de preparação para a experiência e fiquei isolado no meio na natureza por uma semana.
O que você pretendeu com o retiro? Eu fui em busca de maior conhecimento de mim mesmo. Queria um momento de paz e introspecção, ao mesmo tempo em que aprofundava o meu contato com a natureza. E, sem dúvida, foi um momento muito marcante na minha trajetória. Voltei com um aprendizado: minha conexão com o divino na natureza foi muito mais forte do que já tive em toda a minha vida como engenheiro ambiental. Atingi um estado de paz que é muito diferente daquele que conquisto no meu dia a dia. Certamente tenho um longo caminho de aprendizado pela frente. Mas a experiência me ensinou que é preciso manter esse estado de presença em todos os dias da minha vida.
De que maneira conseguir isso com a correria e as tarefas cotidianas? O equilíbrio se consegue estando presente em cada momento. Em outras palavras, um dos maiores desafios da vida está em entender que a única coisa que existe efetivamente é o agora. Não dá para viver achando que só vai ser feliz quando chegar em casa, ou quando tirar férias. É preciso aprender a tirar proveito de cada momento, enxergando-o como único. |