Se fosse possível escolher uma única palavra para definir Cláudio Garcia (claudio_garcia@dbmbrasil.com.br), presidente para a América Latina da consultoria DBM, ela seria equilíbrio. Engenheiro civil com pós-graduação em Administração de Empresas pela FGV, o executivo não deixa que as exigências do mundo corporativo se sobreponham às suas necessidades pessoais e espirituais – e vice-versa. É por isso que antes de tomar qualquer decisão, busca a tranqüilidade a partir dos sinais que a vida oferece – e que, para ele, são uma prova irrefutável da existência divina.
Esses sinais também permitem ao executivo lutar contra a supremacia do ego – uma armadilha à espreita em qualquer esquina, cada vez mais presente nas posições de poder das corporações e, muitas vezes, escondida por trás de intenções positivas, como ser ‘fonte de inspiração’ aos outros. Inspirar, para o executivo, não é um fim em si mesmo, mas um estímulo que deve ser utilizado em situações específicas, com ponderação.
Que desafios encontrou para chegar na posição em que se encontra? A escolha da profissão foi um processo. Aconteceu aos poucos, à medida que ia encontrando situações que brilhavam mais aos meus olhos. Não tinha um plano, mas fazia escolhas. Tive a oportunidade de me encontrar na gestão e no ambiente organizacional e, apesar de todas as dificuldades que existem no ambiente corporativo, acredito que meu aprendizado vem dele até a vida me apresentar outro caminho. Sempre estudei e li muito. Mas acredito que a principal preparação veio de ter tido disposição para encarar as situações profissionais com toda plenitude. Acredito muito que o aprendizado está nas situações e dificuldades que encontramos no dia a dia e essa história que construímos define como lidamos com o mundo exterior e interior. Ter um acompanhamento terapêutico e dedicar algum momento para a oração sempre foram essenciais e talvez daí que vem minha força cotidiana.
Você é presidente de uma das maiores empresas de recolocação de executivos e aconselhamento de carreira do mundo. Como consegue administrar o seu dia-a-dia? Tenho clara noção das armadilhas do ego nestas posições de poder. A possibilidade do impacto que você pode causar nas pessoas é proporcional à luz ou à sombra que você pode impor sobre cada uma delas. E é grande a tentação de ignorar as necessidades alheias. Por isso, faço um exercício diário para não perder a humildade. Também fico atento aos desequilíbrios, ou seja, presto atenção aos sinais do corpo, da mente, aos sinais das minhas relações (com mãe, pai, esposa, filha, amigos) e, também, da alma. Quando o desequilíbrio aparece, algo passa a nos incomodar. À medida que exercitamos essa percepção, mais conhecemos quais são os desequilíbrios a que nos entregamos e passamos, automaticamente, a gerenciá-los ou a exercitar novos padrões.
De que maneira você percebe essas armadilhas do ego nestas posições de poder? E como se livrar da tentação de fazê-lo dominar suas ações? Percebo, dentro dos meus limites atuais, quando o ego está tomando espaço. O primeiro exercício é entender para quem estou servindo na posição que ocupo: a meus clientes, a meus colegas, ao acionista que represento e, principalmente, a uma causa que vive por trás disso tudo. Isso trás, pelo menos para mim, uma sensação de meu papel e de minhas responsabilidades, mas também da minha irrelevância, já que sem todos esses a quem sirvo não represento nada. Assim, sinto-me mais próximo de onde posso estar. Nesses momentos sempre oro para ter forças de compreender o que represento.
Como o senhor trabalha esse seu lado espiritualista e de que maneira consegue inspirar as pessoas ao seu redor neste aspecto? Tenho meus rituais para exercitar minha espiritualidade e estar mais consciente dessa perspectiva que acompanha a todos, mesmo quando não queremos. Além de orações diárias em dois momentos do dia, freqüento cultos de minha religião e dedico bastante tempo para leituras específicas. Mas o maior preparo é o esforço para compreender o traço divino em minha vida, que se apresenta em todos os momentos quando estou com pessoas, vivendo situações com amigos e a família, ou até mesmo sozinho. Existe uma lógica por trás de tudo o que acontece, nas coisas mais regulares de nossa vida e que são carregadas de símbolos, e mensagens que podemos aprender a lidar. Infelizmente, aprendemos a deixar de observar esses sinais. E acho que é justamente aí que está o grande aprendizado espiritual. Sobre influenciar pessoas, tento fazer o meu papel da forma que acredito ser justa, e sempre pedindo orientação orientação divina. Não tento me preocupar com isso". Esse desejo de querer ser alguém que inspira, e que muitos atribuem aos líderes, pode ser uma das armadilhas do ego.
Como o senhor avalia os líderes de hoje? Quem ou como são os verdadeiros líderes, na sua opinião? Esse é um tema difícil, principalmente entre os que estão em posição de chefia, e que se intitulam líderes. Existe, hoje, um culto para "ser líder". Muitos se querem e se acham mais capazes que seus colegas e isso gera muita perda de energia na organização. Por outro lado, poucos exercitam a capacidade de se permitir ser liderado, de reconhecer suas vulnerabilidades e que para muitas situações existem outros mais preparados que eles. Os verdadeiros líderes, como ocorreram no passado, serão cada vez mais difíceis. Vivemos um mundo cada vez mais diverso, com mais opções e bem mais complexo. A capacidade de liderar acaba então variando de situação para situação. Precisamos, no ambiente organizacional, e principalmente entre os "chefes", mais de pessoas que permitam ser lideradas. No futuro, a liderança não virá de um individuo, mas de um grupo de pessoas que se estabelece com um propósito e que, por isso, serão mais influentes do que líderes sozinhos.
Como levar conceitos como ética, espiritualidade e compaixão ao mundo corporativo? Permitindo que sejamos um instrumento da intervenção divina. Só podemos ser o exemplo, como muitos falam, quando estamos em contato com a presença divina. Mesmo se a luz for pequena como um grão de mostarda, ela é capaz de atingir a todos com quem interagimos.
No final do seu ciclo da DBM, como você quer ser lembrado? O grande exercício é não ser lembrado. A DBM deve seguir o seu caminho. É a empresa que deve ser lembrada. Esse exercício do desapego total é muito difícil, mas é isso que eu almejo. Quero que a DBM seja lembrada como uma contribuidora para o sucesso e a transformação do indivíduo. Se isso ocorrer, estou suficientemente satisfeito.
Quais serão, a seu ver, os desafios do futuro e como enfrentá-los? Mesmo fora ou dentro da organização o mundo nunca nos desafiou tanto. Há muita diversidade e muito conflito. Os problemas de hoje são muito mais complexos do que antes, os hábitos sociais estão mudando, a forma como as pessoas se relacionam com estas organizações e como o mundo não funciona mais da forma anterior. A instabilidade e a impermanência será um padrão de vida daqui para frente. A sugestão que dou é se entregar e acolher a vulnerabilidade que estamos vivendo, se entregar às suas limitações, reconhecer os próprios limites. É nos limites que encontramos novas possibilidades. Quando você está vulnerável, é mais fácil aceitar novos começos. Ao contrário, quando se está preso ao passado, não se aprende o que deve. É na mudança que há mais campo para a transformação. |