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Felicidade e Carreira
Cristina Aiach

A busca pela felicidade é um paradigma no ambiente corporativo. Nesta entrevista, Cristina Aiach Weiss, membro do World Business Academy e fundadora da Associação Brasileira de Educação Corporativa, aborda a importância do autoconhecimento para esta conquista

Cristina Aiach Weiss é formada em Administração de Empresas, com especialização em Recursos Humanos pela FGV e Universidade de Michigan (EUA), e MBA Executivo Internacional pela FEA-USP. Com vasta experiência no desenvolvimento de programas estratégicos de recursos humanos, é idealizadora do site www.thenewlife.com.br e, atualmente, diretora de Recursos Humanos do Banco Holandês ING N.V. Em entrevista ao Monsanto em Campo, ela fala de segurança, autoconhecimento, feedback e valores, pontos fundamentais em qualquer carreira.

No geral, as pessoas são inseguras no trabalho? Por quê?
A insegurança é uma característica pessoal presente em qualquer campo da vida. Aqueles que são inseguros por natureza tendem a potencializar este sentimento no ambiente de trabalho. Aí é que está o perigo. Neste ambiente, as variáveis que nos cercam não estão completamente sobre nosso controle: mesmo que você desempenhe a sua função de forma satisfatória e cumpra suas metas, não significa, necessariamente, que será reconhecido. Há também a possibilidade de você ser demitido, independentemente do seu desempenho. A crise atual é o melhor exemplo disso. Somos carentes de feedback. Não sabemos a verdade completa sobre nosso desempenho, como somos vistos, como a empresa nos avalia, se estamos indo bem ou não. Temos de nos proteger da influência de ameaças externas como estas. Um dos caminhos é o autoconhecimento e o alinhamento da atividade profissional com o propósito de vida. A seguranca vem da certeza que temos com nós mesmos de que estamos fazendo o que é certo,o que acreditamos, e o melhor que podemos naquilo a que nos dedicamos.

Qual a importância do autoconhecimento nesse ambiente?
Estamos todos buscando ser felizes na vida como um todo. O primeiro quesito para almejarmos a felicidade é o autoconhecimento. Ele também é uma competência crucial para os líderes do novo milênio. Você não pode ter inteligência emocional se não tiver autoconhecimento. Você não consegue estar em contato com suas motivações se não o tiver. Desenvolvê-lo não é fácil e requer muito trabalho introspectivo, porém sem ele você não consegue ser uma pessoa autêntica e verdadeira. E, portanto, adquirir o respeito dos demais.

E por que é difícil ter autoconsciência?
O universo corporativo nos impõe uma grande cobrança em torno de nossa imagem. Parece-nos que o que aparentamos ser é mais importante de o que somos de fato. Livros e revistas de gestão nos dão as dicas de como sermos bem-sucedidos e a receita para o sucesso. Muitas vezes esta receita está bem longe de nossa natureza pessoal. Corremos o risco de nos envolvermos com estes rótulos e esquecermos de nós mesmos, na ânsia de atender a uma demanda muitas vezes distante de nossa essência. O sentimento é: ‘se você souber quem eu sou, o que penso de verdade, minhas fraquezas, minhas preferências, e se você não estiver de acordo com elas, me rejeitará. Então, vou tentar fingir ser alguma outra pessoa, inclusive até para mim mesmo’. Construímos uma barreira para esconder nossas vulnerabilidades, porque temos medo das pessoas tirarem vantagem de nós. Muito de nossa infelicidade vem da falta deste alinhamento interno e externo. É como se estivéssemos segurando com um braço uma bola de basquete no fundo de uma piscina: em algum momento ela emergirá à superfície, pois manter essa fachada é exaustivo e insustentável. Uma forma eficaz de desenvolver o autoconhecimento é através do feedback honesto.

Qual a importância do feedback e sua avaliação?
Receber feedback é um convite a críticas e, claro, elas são difíceis de ser engolidas. Mas precisamos ter pelo menos uma pessoa na vida que nos dê um feedback honesto, principalmente quando não se está sendo autêntico. Alguém que possamos recorrer quando precisarmos. Eu, por exemplo, tenho meu marido, meu grande crítico e um apoiador legítimo. Mas pode ser um terapeuta, um guru, um grande amigo, um colega neutro no trabalho. Alguém com quem possamos ser verdadeiramente honestos. Para mim, isto é absolutamente imprescindível para se ser um bom líder e feliz.

Normalmente, guardamos apenas os elogios e nos esquecemos de avaliar os pontos considerados negativos. É necessário estudarmos esses pontos?
Não importa a idade. Através dos anos acumulamos crenças, suposições sobre nós mesmos e as pessoas, muitas das quais falsas. Estes falsos conceitos permanecem agarrados a nós e causam resistência, limitando nosso potencial. O feedback nos ajuda a avaliar a percepção que temos de nós mesmos, e também a renovar a ideia que temos de como somos percebidos pelos outros. Uma outra oportunidade é na avaliação de desempenho. Ela é uma via de dois caminhos. Tanto quem é avaliado tem a oportunidade de ouvir como seu desempenho está indo, como também quem avalia deveria ter a coragem de ouvir se é um bom avaliador e/ou gestor.

O gestor também deve ser avaliado?
Muitas vezes nossos chefes têm uma boa impressão nossa, mas nossos subordinados não. Se você não ouve as pessoas que trabalham para você, você está condenado. Não importa em que área esteja, você não terá o respeito delas. Respeito é fundamental e vem da confiança. Os líderes ganham respeito quando são autênticos, reais, interessados e preocupados pelos outros, e quando colocam as pessoas juntas ao redor de propósitos comuns. Mas também, quando são coerentes com o que falam e fazem. Estamos vivendo uma crise da confiança. Não há confiança porque não há coerência. Aquilo que o gestor cobra de sua equipe, ele mesmo não faz. A credibilidade cai rapidamente. E sem isso você não mobiliza pessoas.

E a espiritualidade? Ela é um fator relevante no mundo corporativo?
A espiritualidade nada tem a ver com religião. Ela é a capacidade de acreditar naquilo que não se vê, que existem forças que atuam em nosso meio que estão além do visível do palpável. No ambiente de trabalho, ajuda a sermos mais humanos, solidários e humildes. A espiritualidade nos dá o senso de que todos compartilhamos um mesmo espaço e somos uma rede de pessoas interligadas, que dependem umas das outras.

A remuneração é o fator mais importante na vida de um profissional? Você acha que é ela que faz as pessoas trocarem de emprego?
Não acredito que o que realmente motiva as equipes é o salário. O que motiva as pessoas são os valores por trás das atitudes de seus líderes. Durante minha carreira, vi muitos profissionais trocarem de emprego e, quando se justificavam, colocavam a remuneração como primeiro lugar. Mas em uma conversa um pouco mais profunda, descobria que, no fundo, estavam trocando de líderes e não de empresas e/ou salários.

Ao procurar emprego, o profissional deve buscar o quê?
Os valores são o princípio de tudo. São eles que levam uma corporação a ser competitiva no longo prazo. O mesmo se dá com nossas carreiras. Atualmente, as pessoas estão muito mais voltadas aos valores financeiros do que éticos. Os resultados são fundamentais. Mas a questão é que há mais de um tipo de resultado na vida das empresas e na vida profissional. Verdade e valores são conceitos móveis. O bem-estar tem a ver com o alinhamento do que você pensa, fala e faz. Ele deveria ser uma busca constante entre nós.

Afinal, o que devemos fazer para sermos felizes no desenvolvimento de nossas carreiras?
Existem partes de um barco que se estivessem sozinhas afundariam. A hélice afundaria, assim como o motor. Mas quando as peças de um barco são colocadas juntas elas flutuam. Assim temos de olhar para nossas carreiras: algumas partes não são tão boas e outras, felizes e bem-sucedidas. Quando colocadas juntas, formam um conjunto que flutua e navega para algum lugar. Então, a primeira dica é acolher nossa história de vida, nossas vitórias e fracassos. Respeitar quem somos e o que construímos ao longo da vida. Estamos todos buscando a felicidade. Talvez nunca chegaremos num ponto da vida em que tudo esteja correndo tão bem que possamos expressar: "sou uma pessoa completamente feliz". Então, a segunda lição é: muitas vezes a jornada tem valor maior que a chegada. Devemos ter a capacidade de apreciar a paisagem, viver o presente e agradecer pelas conquistas do agora.

Se atuarmos o tempo todo tentando agradar a todos, nos distanciaremos cada vez mais de nossa essência e verdade interna. E seremos apenas um produto do meio. Então a terceira dica é: procurarmos ser, cada vez mais, autênticos com nós mesmos e alinharmos nossas escolhas ao nosso propósito fundamental de vida. E não parar de se questionar: 'Isso realmente faz sentido para mim? Como estou contribuindo para a vida das pessoas? Qual está sendo o meu legado?'.

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