Monge budista com formação em filosofia. Gustavo Alberto Corrêa Pinto é um dos mais reconhecidos estudiosos dedicados à disseminação da cultura religiosa budista. Professor de Pensamento Oriental em diversas universidades brasileiras, pertenceu, em 1994, ao conselho consultivo da Associação Brasileira de Recursos Humanos e, em 2001, fundou a Associação Terra da Paz, para promoção da educação interreligiosa – localizada em Cuiabá (MT).
Sem fins lucrativos, a Terra da Paz (www.terradapaz.com.br) pretende ser um espaço em que jovens clérigos recém ordenados, oriundos de diferentes religiões e vindos de vários países, estudassem uns as doutrinas dos outros, com foco em valores compartilhados. “Desta maneira”, revela o budista, “eles terão aprendido o que diferencia a sua fé das demais tradições espirituais. Afinal, o mundo precisa de líderes espirituais que construam um convívio respeitoso e fraterno entre as diferentes religiões, aproximando povos e países”.
É assim, pregando a tolerância e o respeito entre as pessoas que Corrêa Pinto crê ser possível às empresas brasileiras estabelecerem altos ideais capazes de levar a altos lucros – confiáveis e perenes.
Essa entrevista foi cedida pelo monge à Revista da ESPM (volume 14). O nosso The new life reproduz os melhores trechos, que foram gentilmente autorizados por ele. Leia os melhores trechos, a seguir:
O senhor concorda que as empresas mais preocupadas com valores morais, responsabilidade social, respeito ao ser humano, frequentemente são as mais lucrativas? GACP – No Oriente não existiu uma divisão matéria X espírito como aconteceu no Ocidente, a partir da Idade Média. Como esses universos não foram vistos como separados – e algumas vezes inconciliáveis –, houve uma possibilidade de integração mais natural da espiritualidade nos negócios. Por isso, há exemplos de empresas orientais que são líderes de mercado no mundo inteiro, tem fábricas em diferentes continentes e nasceu do ideal de um homem, mas que só existe como empresa em função de um trabalho de difusão dos valores pelo mundo, que se sobrepõe ao lucro. O lucro, nestes casos, foi apenas o meio para se alcançar o sucesso.
O senhor acredita que a maioria das empresas poderia pensar em equilibrar espiritualidade e lucratividade? GACP – Acho que as empresas vão ter – cada vez mais, daqui para frente – de refletir sobre qual é o sentido humano do que fazem. Até agora não prestamos muita atenção nesta indagação. Daqui em diante, contudo, cada indivíduo, para dar o melhor de si no que ele faz, vai precisar ter isso bem respondido para ele mesmo: qual é o sentido do que eu faço para a minha existência, para que eu me saiba útil aos meus semelhantes, ao meio-ambiente e, ao final da minha existência, poder dizer que valeu a pena ter vivido uma vida e dedicado meus esforços para criar aquilo que eu acredito ser útil ao mundo do qual estou partindo.
As universidades, neste sentido, poderiam contribuir para a difusão desses valores espiritualistas no mercado de trabalho? GACP – Concordo inteiramente. Essa colocação inclui conscientização de valores e não apenas técnica de um profissional em formação. Quando esses valores são incluídos, e são valores humanos, de princípios que transbordam, inclusive, hoje, do humano para a natureza. É preciso que a escola possa oferecer aos alunos o melhor que somos capazes de criar para que eles sejam felizes no que fazem e contribuam para o bem comum.
No entanto, hoje, no mundo dos negócios, ganha-se dinheiro cobrando mais caro ou cortando custos. Como os jovens profissionais, interessados em valores, poderão se sentir completos e felizes em realidades tão opostas? GACP – Acho que estamos numa transição para uma etapa de civilização onde esse tipo de valor vai ser condição de sucesso. Hoje, há importadores de madeira, na Europa, que exigem uma certificação da madeira que comprove as condições de manejo ambiental das quais elas se originaram: isso é um novo dado, mas é a ponta de um iceberg que está surgindo. A civilização está mudando e, nesta mudança, que estamos tateando, acho que já começamos a enxergar que o imediatismo, a visão de curto prazo, os valores somente de rentabilidade nos negócios irão esvaziar as empresas que insistirem em continuar assim. Porque o ser humano está acordando para o fato de que não vivemos apenas para o pão.
Por quê, na sua opinião, muitas empresas brasileiras não sobrevivem mais de 5 anos? Seria um erro de planejamento estratégico? GACP – É difícil responder a essa pergunta talvez porque existam inúmeras causas diferentes para cada um dos infortúnios que faz a empresa encerrar as suas atividades. Acho que seria simplista da minha parte pretender só uma explicação para tantos fracassos. Mas, ao focar o aspecto do planejamento de longo prazo, pode ser um dos componentes. Para pensarmos num futuro de 250 anos, por exemplo, que foi o que o senhor Konosuka Matsushita, fundador da Panasonic e um dos grandes líderes industriais japoneses, tal capacidade de perpetuação só encontramos em valores que sejam fundamentais para o ser humano em qualquer época. A ética é uma expressão de espiritualidade no mundo concreto.
Como o povo japonês pensa e planeja no longo prazo, quando sua maior filosofia é de que “o passado já não existe, o futuro ainda não existe e o que importa é o presente”? GACP – Essa afirmação refere-se, especificamente, a uma tendência de dispersão da mente, voltando-se por apego a memórias do passado e antecipando, por ansiedade, suas expectativas de futuro. Isso não significa, em absoluto, a negação da importância do passado e da necessidade de nos valermos dele no presente para podermos projetar um futuro confiante. Somos herdeiros do que recebemos no passado, mas temos um compromisso com as gerações vindouras, no que iremos legar a elas.
Isso pode ser transportado para o universo empresarial? GACP – Deve ser transporto se a empresa tiver consciência de que ela veio para perdurar e, neste caso, deve pensar a responsabilidade dela para as gerações futuras.
Que conselho você daria aos homens de negócios, empresários que queiram ir um pouco além do imediatismo, que queiram enriquecer suas vidas e a de suas empresas e, entretanto, não deixar o princípio do lucro? GACP – Não ousaria chamar de conselho. Gostaria de pensar em voz alta com esses empresários a quem vamos nos dirigir e, por isso, volto à frase da obra do senhor Matsushita, quando diz: ‘não vivemos só do pão”. Todos precisamos acordar para isso. Só com o pão, o ser humano não se realiza plenamente. Não será feliz, não poderá ver florescer quem ele é capaz de ser. Algo sempre faltará se nos restringirmos à busca do pão. Nossas vidas precisam ter um sentido maior, que nos transcenda a nós mesmos como indivíduo e nos mostre que participamos da aventura de um tempo – a época em que vivemos – e trouxemos uma contribuição que foi útil para além de cada um de nós, e a todos aqueles que puderem usufruir disto – seja um sorriso numa hora difícil, seja um alento, o que quer que tenhamos, pelo menos, intentado fazer da melhor maneira possível para que seja útil a nosso semelhante. A espiritualidade é parceira da materialidade, não é adversária, antagônica. Ao contrário, é a espiritualidade que pode levar a materialidade à plenitude de sua pujança. Do lado pessoal, quando as pessoas descobrirem que o mundo não era o que esperavam, que ponham forças para transformá-lo no que vocês sonham. É esse o ideal que precisamos manter aceso no mundo.
Associação Terra da Paz: Entidade sem fins lucrativos foi fundada por Gustavo A Corrêa Pinto para oferecer a jovens clérigos a oportunidade de descobrir, em cursos de imersão com duração de seis meses e ministrados em inglês, as semelhanças de valores existentes entre as mais diversas religiões. Para tanto, a associação oferece bolsas de estudo a jovens que acabaram de se ordenar rabinos, xeiques, padres, pastores protestantes, monges budistas, hinduístas e outros religiosos. Saiba mais acessando: www.terradapaz.com.br |