Formado em Engenharia pela Politécnica e com 30 anos de carreira no Brasil e no exterior, Hélio Contador, presidente da Visteon, fornecedora global de tecnologia automotiva, conta sua trajetória profissional e como a espiritualidade influenciou o seu sucesso pessoal e profissional.
Quais os principais valores que contribuíram para o seu sucesso profissional? Minha filosofia também sempre foi de me adaptar à cultura das empresas que trabalhei e acima de tudo respeitar e ser honesto com as pessoas. A gente lê muito por ai que o mundo competitivo não permite esse tipo de coisa... que ele obriga você a escorregar no desrespeito com as pessoas... a negar a ética e a honestidade e isso não é verdade. Honestidade para mim é você falar a verdade, doa a quem doer, nem sempre é agradável. Isso ficou muito claro para mim, na minha transição de engenheiro técnico para gerente. Na divisão automotiva, a gente fala com pessoas muito simples, de todos os níveis, desde entregador até supervisores de áreas. Você tem que acreditar, estar convencido e ter clareza do que está falando, falar com transparência. Honestidade e transparência é você assumir as decisões que tem que tomar. Isto sempre funcionou na minha carreira, a vida inteira, e continua funcionando.
Descreva "transparência" no contexto da sua posição como Presidente. Tudo que você usa a força da sua hierarquia tem vida curta. Gerenciar pessoas hoje não é mais como antigamente, na base da força, do grito, do desrespeito, isso não funciona mais... Eu nunca usei disso. Sempre fui ao contrário... sempre usei o convencimento, mesmo que ele dê mais trabalho, mas é muito mais limpo. As decisões não foram só porque o chefe mandou... mas porque há um motivo! Então, você muda as pessoas, elas não ficam falando pelas costas "a decisão está errada, vou fazer só porque ele mandou". Ao contrário, elas se convencem às vezes elas não concordam, mas quando as coisas são explicadas, normalmente, não tem fofoca porque a pessoa entendeu. Para mim, transparência é explicar os motivos por trás das decisões que você toma. Muitos falam a sua equipe "não é minha culpa, se fosse por mim, eu não faria, mas vou ter que tomar esta decisão". Você dá uma enganadinha, mas depois fica se remoendo e em algum momento, tudo se revela. Porque a verdade sempre aparece. Porque é impossível enganar as pessoas por muito tempo. Ser transparente é mais cômodo para mim, eu me livro do problema e não fico com a pendência na minha consciência. È claro que tem maneiras e maneiras de colocar as questões para as pessoas.
Críticas são comuns ainda mais nas funções de alta direção. Que valores são importantes para você quando lida com as pressões de sua posição hierárquica? Eu não assumo posição isolada, dialogo com as pessoas abertamente. Converso com os diretores constantemente. Não uso máscaras. Acho que essa transparência facilita tudo porque eu não tenho que ficar interpretando. Eu também nunca me deixei contagiar pelos benefícios do meu cargo. O cargo é somente um cargo. Com ele, todo mundo te serve e estende o tapete vermelho o tempo todo. E é perigoso, porque uma hora você não vai ter mais isso. Então você tem que analisar o quanto isso subiu na sua cabeça e como tem tratado as pessoas. Cansei de ver pessoas tratando outras de forma diferenciada só porque ocupavam posições altas. E um dia elas perdem estas posições. E aparecem como cordeiros. Eu olho e penso: que situação crítica esta pessoa se deixou cair, porque é uma degradação. A pessoa interpreta um papel. Eu dou mais valor a causa do que a pessoa. As pessoas mudam, mas suas causas não. A espiritualidade me ajudou a ser cada vez mais honesto e ético, e é isso que passo para as pessoas que eu convivo. Você pode tomar uma decisão sem ter que ofender ninguém, e deve ter tolerância com o desempenho delas também.
Como aconteceu para você a busca do equilíbrio entre trabalho, lazer e espiritualidade? Quando a gente é mais jovem, a questão material é muito forte. Construir família, estudar, ter uma casa, casar, ter filhos, estudos, etc. Se você já tem de berço, tudo bem. Mas não é a maioria. Depois desta fase você começa a aprimorar seus valores. Até os 40 anos de idade, trabalhei feito louco e sacrifiquei a família e achava natural. Poderia ter balanceado melhor. Foi então que eu falei para mim mesmo: tenho que mudar meu estilo de vida senão, o final não vai dar certo. Precisava de algo que vai além da matéria. Estava infeliz, me desgastando demais. Subi na vida. Mas faltava alguma coisa. Dentre as diversas atitudes que tomei, comprei uma Harley Davison, um sonho de liberdade, não uma moto, é sim um estilo de vida. Foi nesta fase também que comecei a me interessar pelo lado espiritual da vida. Acabei aprendendo muito sobre o espiritismo e este aprendizado só reforçou o que eu já vinha fazendo inconscientemente, então, de alguma forma já estava plantando. Comecei a reforçar as coisas boas de uma forma mais consciente e ver o mundo de uma forma diferente. Meus valores foram mudando. Aos 50 anos fui resgatar a música na minha vida que gostava desde criança. Entrei num conservatório de música e estudei saxofone por 2 anos. Hoje toco em eventos, é um sonho desde criança que eu consegui realizar nesta etapa da vida.
Como o espiritismo se aplica no contexto do seu trabalho? Acho que tem três coisas no espiritismo: a religião, a ciência e a filosofia. Eu procuro a parte da filosofia e não a da religião. Porque a religião, cada um escolhe o que quer. A filosofia espírita ensina que todos têm uma vida espiritual eterna, e que todos são iguais perante a um Deus. Ela fala o que é você respeitar as pessoas, entender que as pessoas têm ponto de vistas e graus de evolução moral diferentes do seu. Alguns mais, outros menos. Que se deve sempre tratar as pessoas como você gostaria de ser tratado. Então, numa situação que você está nervoso ou sem paciência, qualquer agressãozinha que você queira fazer com o outro, pense: eu gostaria de ser ofendido, de ser tratado dessa maneira? Não! Então, você volta e se recupera. Entender as pessoas, aceitá-las e respeita-las, são os pontos principais da filosofia espírita que devem ser aplicados dentro da empresa.
Além de suas atividades pessoais, você também mantêm um Instituto? Eu e um grupo de amigos criamos o Instituto Cândido de Desenvolvimento Social porque vimos que tinha muita gente querendo ajudar, mas não tinha uma organização confiável. O projeto já tem 5 anos e apadrinha quase 60 crianças em 7 casas diferentes de São Paulo. Também estamos fazendo o trabalho de implantação de uma biblioteca na periferia de Guarulhos. Não é chegar, montar, pintar, colocar livro e ir embora. É 1 ½ ano de trabalho com educadores onde eles estimulam a criança a ler. Ajudamos as instituições que ajudam as crianças e tem sido muito gratificante. Atualmente proporcionamos cursos de capacitação para mais de 500 crianças e jovens carentes. Tudo isso só foi possível e é um fator fundamental para o meu sucesso graças a minha família, meus filhos e a minha esposa, com quem estou casado há mais de 18 anos, que sempre me apoiaram e participaram de todos os meus projetos.
Mas como mudar a cultura das empresas? Tente sair do materialismo puro. Tem uma frase que eu li, há pouco tempo, e ela ficou piscando na minha cabeça. Ela fala o seguinte: "o ser humano não sorri porque não tem problema, mas sorri porque consegue superar os problemas". E a espiritualidade traz isso para a gente. Você acha que você vai ser feliz quando não tiver problema nenhum, esquece! Você vai ser feliz quando for capaz de aprender a enfrentar e superar os problemas. E para que a pessoa tente descobrir o ponto ideal. Acho que quanto mais alta a hierarquia, menos técnico você é. Muito mais administrador de seres humanos você é. Então, tudo te ajuda a ser um ser humano melhor, a se relacionar melhor com as pessoas. Uma coisa que a gente aprende com a filosofia espírita, é que a gente está em constante evolução, que temos ainda muito para aprender.
José Helio Contador Filho, é atual presidente corporativo da Visteon América do Sul. Seu histórico é extensivo em engenharia de produtos, manufatura, marketing e vendas É formado em Engenharia Eletrônica pela Politécnica/USP, com especializações em Marketing e Administração de Empresas na FAAP, FGV e Duke University. Contador é membro dos Conselhos: Superior do Sindipeças, Consultivo Sênior da Sociedade de Engenheiros da Mobilidade - SAE Brasil, AMCHAM - Câmara Americana de Comércio de São Paulo e IQE - Instituto Qualidade no Ensino e presidente do ICDS - Instituto Cândido de Desenvolvimento Social. |