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ENTREVISTAS
As experiências e as reflexões de quem trabalha para a evolução de pessoas, empresas e organizações.
 
Propósito de Vida: a aprendizagem a serviço da evolução
Por Luciana Mendonça

Marcelo Cardoso marcelo_cardoso@dbmbrasilo.com.br é CEO da DBM Brasil (www.dbm.com) desde 2004. Anteriormente, trabalhou na GP Investimentos e foi CEO do Playcenter S/A e Presidente do Hopi Hari, o maior parque temático da América Latina. Graduado em Administração de Empresas, com extensão na Kellogg-Northwestern de Chicago, USA. Além das atividades profissionais, Marcelo é líder voluntário no Centro Cultural Arautos, aonde orienta diversos públicos sobre temas como carreira e espiritualidade no trabalho.

Em entrevista exclusiva ao portal TheNewLife, Marcelo fala sobre o período de transição de quem migrou da área financeira para a área de desenvolvimento de capital humano e como esta mudança o ajudou a criar, entre outros, o conceito de propósito de vida, a importância da espiritualidade aplicada à carreira e a verdadeira função do networking.

1) Como foi a mudança da área financeira para a liderança da maior empresa de transição de carreira do Brasil?
Eu construí minha carreira, durante 15 anos, na área financeira, mas houve um momento em que comecei a me angustiar com esta posição, eu sentia que poderia realizar algo a mais. Nesta época, entre 92 e 93, eu já tinha uma preocupação com a busca espiritual, a busca por transformação. Foi quando eu tive um insight, a visão de um lugar em que as pessoas pudessem evoluir pela espiritualidade. A energia deste momento me impulsionou a mudar. Eu acabei indo fazer um trabalho terapêutico no Novo México, USA e lá percebi que eu deveria construir os projetos que tanto pulsavam dentro de mim, meus projetos deveriam fazer sentido internamente, porque a partir do interno o externo aconteceria naturalmente. Resolvi, então investir nesta idéia, que na verdade, considero um chamado.

2) Qual o papel do Hopi Hari nesta nova etapa de sua vida?
Quando fui convidado para ser diretor financeiro do Playcenter eu sabia que estava no caminho certo porque parte do insight que tive estava relacionado com brilho no olhar de crianças. Eu pensei que ao trabalhar na área de entretenimento, eu poderia ajudar a recuperar este brilho e assumi o desafio. Aos 30 anos, era o responsável pelo Hopi Hari, um projeto enorme de $200mm e eu nunca havia administrado nada deste porte. Apesar de ter sido um negócio cheio de problemas, foi uma experiência fabulosa, transformadora e intensa porque, em partes, ela representa a minha crença no propósito de vida. Hoje, quando eu me pego falando para um executivo negociar o seu ciclo, ter clareza do seu projeto, assumir os desafios inerentes é porque acredito que é nos desafios, no engajamento com algo mais grandioso do que você, que conseguimos aprender.

3) Em que momento a espiritualidade passou a ser uma referência em seu trabalho?
Quando o Hopi Hari começou a operar, a experiência de reunir pessoas fez com que eu acabasse levando esta questão da espiritualidade e de se trabalhar as emoções no ambiente de trabalho. As respostas foram as melhores possíveis, pois eu pude ver os resultados anos depois, quando voltei ao parque, como visitante, e várias pessoas vieram me cumprimentar e dizer o quanto aquele período havia sido importante para elas. Este episódio só reforçou a minha convicção de que eu queria trabalhar com isso, que meu propósito de vida era proporcionar o desenvolvimento de pessoas na organização, esta possibilidade toda de despertar a transcendência no mundo corporativo, um olhar mais amplo sobre o papel do trabalho nas nossas vidas.

4) Como você vê a espiritualidade sendo absorvida e empregada nas relações de trabalho hoje?
O que eu posso perceber, lidando com empresas e executivos é que o sistema todo está muito atento ao seu potencial, mas não reconhece esta dimensão. Então a qualidade das decisões e das relações é feita de forma muito limitada porque não explora os potenciais emocionais e transcendentes. Eu fico imaginando o poder de transformação que as organizações terão ao incorporar um pouco destas dimensões em suas relações. Por isso, eu escolhi vir para a DBM, não é só mais uma empresa para mim, é um processo de escolha e eu tenho clareza que é uma escolha que também representa o início de um ciclo de vida que respeita meu chamado interno.

Na realidade a energia psíquica que alimenta os resultados das organizações vem da busca de preencher necessidades básicas das pessoas, sobrevivência, afeto e poder.

5) Como começou seus estudos sobre a Busca do Propósito de Vida?
Quando eu saí do Hopi Hari, a primeira pessoa que falei foi o José Carlos Teixeira Moreira, da Escola de Marketing Industrial. O Zé Carlos estava muito próximo de um projeto meu e quando liguei para ele, fui parabenizado porque a partir daquele momento, ele disse que eu poderia escolher trabalhar pela ética do prazer. Na época, eu fazia terapia, comecei a trabalhar muito minhas crenças pessoais, meu modelo de trabalho duro que eu tinha incorporado de meu pai, que havia começado a trabalhar muito cedo e havia aberto mão desta plenitude. Quando eu comecei a perceber o prazer, fui estudar, refletir sobre o assunto e daí surgiu a primeira lógica que fui refinando "encontrar as atividades, as relações, aquilo que te dá prazer".

6) Como você alcançou o seu Propósito de Vida?
Na realidade o propósito é um processo e a busca por significado da jornada, porém, o primeiro insight veio através da reflexão sobre o que me dá prazer. Este é um exercício que fiz e que proponho para muitas pessoas, fazer uma lista do que mais dá prazer a elas e depois refletir sobre quanto por cento do seu tempo, na semana, gastam com aquelas coisas. Geralmente, os resultados são deprimentes. Eu fui estudando, me aprofundando e por esta dica do prazer eu fui chegar no propósito. Comecei a perceber que eu gostava de lidar com gente, de desenvolver pessoas, mas também gosto muito de estar em start up, gestão, esportes, espiritualidade, coloquei tudo isso junto e articulei o meu propósito de vida, que está baseado nos autores que fui lendo, em ter clareza de valores, visão de futuro e atuação criativa. Como algumas pessoas estavam insatisfeitas no Hopi Hari e me ligavam com freqüência, propus a maneira que eu tinha para ajudá-los: fazer com eles a reflexão que eu estava fazendo comigo. Criei um roteiro e após três meses, a maioria dos que fizeram a reflexão tomaram a decisão de sair do Hopi Hari porque tiveram clareza do que queriam. Foi aí que resolvi criar um workshop que teve a participação de 60 pessoas e foi surpreendente! A experiência foi muito bacana e o retorno também.

7) Como o propósito de vida está vinculado a evolução de cada um?
Eu percebi, a partir da minha experiência e leitura de autores como Nilton Bonder, Victor Frankl, James Hillman, Nietzsche entre outros, além de livros sobre a doutrina espírita e o vedanta, que todas as pessoas que têm seu propósito de vida claro, o descrevem como servir e fazer o bem. O curioso é que todos nós temos este potencial de servir ao outro. O exercício da busca de propósito é encontrar o seu caminho de evolução, sua própria impressão digital que o diferencia dos outros pois traz o seu histórico de vida, que é único. O seu propósito de vida é a capacidade de entender o significado de suas experiências do passado e, ao mesmo tempo, projetá-las no futuro, como você pode colocá-las a serviço de sua evolução. Porque à medida que você evolui, naturalmente, a sua evolução se coloca a serviço do outro.

8) Hoje se fala muito da importância do networking, qual seu conceito de networking e a importância para os profissionas?
Acho que a grande questão do networking é como ter relações duradouras, não superficiais, não confundir happy hour e almoços com troca de cartões. O grande equívoco que está por trás deste conceito é a relação de interesses que se estabelece. Eu vejo diferente, eu aprecio o conceito pois nos dá a possibilidade de construir relações sustentáveis. Qual a premissa por trás disso? Toda vez que você se sentar na frente de alguém, ao invés de pensar no que a pessoa pode te dar, inverta a situação e pense no que você fazer para ajudá-la. Se você começa qualquer tipo de interação dando o que você mais quer, você cria o canal pelo qual a relação acontece, pelo qual a troca acontece perene e naturalmente.

9) O que está mudando no mercado de trabalho e quais suas recomendações para os profissionais no futuro próximo?
A palavra de ouro é questionar, ter dúvidas, abraçar a inquietude interna que produz a aprendizagem. Pela primeira vez, em 25 anos de carreira, vejo o país na liderança de alguns setores: etanol, imobiliário e educação. Numa dinâmica única de crescimento sustentável, crescimento do mercado de private equity. Neste cenário, infelizmente, eu ainda me defronto com pessoas esperando o seu plano de carreira, esperando o seu plano de desenvolvimento. O que eu vejo é um ambiente muito mais dinâmico, complexo e cheio de oportunidades. A única alternativa para as pessoas que vão fazer a diferença é se apropriarem do seu projeto de desenvolvimento. Então, deve-se ter clareza do que se quer na vida, aprofundar-se, dar andamento ao seu propósito de vida, fazer escolhas que façam sentido internamente. Ter experiências inusitadas, conviver com comunidades diferentes, viajar pelo mundo, ler livros, freqüentar cursos de filosofia, estudar línguas, ser curioso por temas fora do seu contexto de trabalho. Quem for assertivo, tiver um projeto, exercitar a diversidade, vai estar no lugar certo porque estará em movimento e não apenas esperando.

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Comentários
3/4/2008 21:19:26
Gostei do conceito do networking, vc tem razao, a gente tem que oferecer algo antes de querer algo de alguém. Bem colocado.
Claudio Gurdie
claudiogur@gmail.com.br
3/4/2008 11:27:24
Prezado Marcelo Espiritualidade, propósito de vida, significado- palavras que soam como música. Na crença de que o propósito de estarmos aqui é a nossa evolução e que temos mestres que ocupam posição importante em nosso aprendizado, quero dizer que estou muito feliz com a possibilidade de tê-lo como mestre...Parabéns pela entrevista e pelo posicionamento em relação ao mundo...
Marcelo Ricardo Madarász
marcelomadarasz@natura.net
28/3/2008 16:00:10
Eu adorei esta entrevista, gostaria de desenvolver meu lado espiritual, mas não sei bem como começar. Este texto deu boas dicas de leitura. Parabens!
Janaina Albuquerque
janalb@terra.com.br
19/3/2008 16:00:57
Assisti várias palestras do Marcelo Cardoso, no Arautos, foi ótimo porque mudei a forma de olhar para mim mesmo e me convenci de que as mudanças, realmente só acontecem se você mudar o seu prisma sobre sua vida pessoal e profissional. E as mudanças somente acontecem de dentro para fora, o contrário é nulo.
Mauricio
mtoogoshi@ig.com.br
7/11/2007 09:21:13
Marcelo, meu novo velho amigo...parabéns. Brilhantemente simples. Inquietude, diversidade e busca pelo aprendizado. Vindo de você, sei que são muito mais que palavras. Um abração Caldini
Alexandre Caldini
alexandre.caldini@abril.com.br
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