Nos últimos dois meses produzi uma matéria para a Revista Melhor, "Valores da Alma e da Organização". Mas, ela poderia se chamar também, "Ética e Consciência Cósmica nas Relações Corporativas e Humanas". O fato é que a reportagem foi capa da edição de julho/07 e, durante as apurações das informações, entrevistas e a produção propriamente dita, ao escrever e amarrar cada preciosa informação obtida, tentando deixar o texto fluído, fui percebendo e me conectanto, ou re-conectando, a uma verdade irreversível. As empresas que não se tornarem éticas e colocarem para andar a roda da energia do compartilhamento das expectativas, dos medos, do respeito, do resultado bom para todos, não vão obter perenidade num mercado opressor, agressivo e competitivo. Estarão impiedosamente fora do jogo. E o ser humano que não seguir o mesmo vento, também.
Uma das informações mais interessantes, e que me intrigou a ponto de questionar a fonte, foi que, a empresa tem que se adequar ao colaborador, e que é ele que escolhe seu canto profissional. Outro entrevistado me disse que, na sua organização, não havia programas de motivação. E que a cultura da empresa fazia com que os próprios executivos descobrissem se aquela era, ou não, a corporação que se adequava a seus objetivos e desejos. Ressaltou: "muitos deles pediram para sair, o que prova que essa política dá resultados práticos". Previligiar a humanidade nesse cenário, muitas vezes predatório, era o que eu esperava ouvir. Mas, deixar um bom emprego (bom salário, carro e benefícios, etc) porque a empresa não se encaixa ao profissional? Não teria que ser ao contrário, a pessoa se submeter ao sistema imposto pela companhia?
Não entendi bem, e logo pensei: "mas esses profissisonais têm família, contas, compromissos, etc. Como podem se dar ao luxo de deixar um emprego bom pelo fato de não se encaixarem nele? Ok, na hora a resposta ainda não me pareceu muito convincente, sob o ponto de vista real, material. Porém, foi com uma grande surpresa, um mês mais tarde, que eu entenderia a essência disso. A resposta veio da forma que o universo gosta, dando opções e indicando os valores da vida diante de nós, na prática. Durante meus quase trinta anos de jornalismo, trabalhei em grandes empresas, como TV Cultura, SBT, Site Terra, Globo, e colaborei com muitos veículos.
Uma vez, depois de entregar uma matéria sobre agricultura para um jornal de um político de Campinas, o editor me ligou e disse: "aqui nesse jornal não se fala bem do governo FHC!!". Não adiantou explicar que aquela era a realidade apurada. A produção de grãos vinha crescendo, a genética dos alimentos estava sendo aperfeiçoada, o que barateava seu custo, etc. Situações como esse passei algumas vezes, especialmente editando jornalismo na TV. Por isso, especialmente, tinha colocado como minha meta não mais me submeter a empregos que fossem contra a minha paz, a minha meditação e a minha qualidade de vida espiritual, sobretudo. Isso foi em 2000.
Tudo correu bem por alguns anos, deu para fazer de tudo um pouco. Morar bem, comprar o que queria e viajar para lugares bons. Depois de um tempo tive um problema de saúde e o trabalho diminuiu. Mesmo a situação um pouco insegura, a qualidade do trabalho, o prazer na produção continuavam os mesmos. Apesar de ter trabalhado em várias editorias, incluindo esporte, sempre gostei mais na área cultural e de RH, gestão de pessoas: relacionamentos humanos, gente, energia. Trocas.
Voltando ao início, a matéria "Valores da Alma e da Organização" ficou boa e me colocou a prova de várias formas. Mas, o mais impressionante foi a seguinte: por volta do dia 15 de julho recebi uma proposta de emprego de uma multinacional de alimentos, para a área de marketing – que não é a minha espacialização, mas está vinculada a comunicação. A empresa oferecia carro, um salário bom e todos os benefícios. Eu teria que trabalhar durante 10 horas por dia, entrando em contato integral com médicos, circulando na cidade boa parte do tempo, alocado fora da empresa, vestindo terno, o que não se encaixa nada com o meu perfil. Sou um jornalista, descontraído, um pensador, gosto da vida simples, mas profunda. Busco o sucesso, mas com consciência e qualidade . Tinha certeza que eu não ia conseguir ser produtivo por mais de três meses nesse emprego. Ao mesmo tempo, pensei - preciso tanto deste salário! Refleti durante o dia todo.
A noite, conversei com minha mulher. Ela me disse, "aceite somente se tiver certeza que isso vai te fazer feliz! E releia a matéria que você acabou de fazer!". Após ouvi-la, minha decisão já estava concluída. No dia seguinte telefonei agradecendo, expliquei os motivos por trás da minha decisão e comuniquei que se aceitasse eu poderia até prejudicar a empresa. Até hoje sinto uma sensação estranha, mas com certeza essa foi a decisão certa. Difícil, mas feliz.
Dum de Lucca é jornalista, com experiência em importantes canais de mídia impressa e falada por mais de 20 anos. |