Fiz uma opção corajosa, que contraria os estereótipos do mundo corporativo. Confesso não ter sido fácil resistir às pressões. Mas tem valido a pena cada segundo desta nova vida, cheia de encontros e descobertas.
Por Cristina Aiach Weiss
Gostei muito da reportagem de capa da 3ª edição da revista Época Negócios, sobre infelicidade no trabalho. Assinada por Amauri Segalla, a matéria é verdadeira, profunda e põe o dedo na ferida corporativa, de forma corajosa e bem fundamentada. O universo dos executivos angustiados agradece.
Sou executiva de Recursos Humanos e, em função de minha atividade, ao longo de anos de carreira, conheci de perto os bastidores da vida desses profissionais sofridos. Sei do que a reportagem fala.
Para o observador superficial, o executivo é uma pessoa feliz e realizada. Feliz porque exerce o poder e está no topo do mundo e sente prazer nisso. Realizada porque, por meio desse exercício, conquista estabilidade financeira e influência. Tem o reconhecimento da mídia e, com a força de seu cargo, atende às demandas do ego insaciável. Porém, por trás dessa máscara poderosa e risonha, pode existir um ser humano frágil e profundamente angustiado. Um ser humano que não tem o controle do seu tempo, que se move em um mundo cada vez mais artificial, longe da natureza e das coisas simples da vida. Um ser humano que, na competição desenfreada para conquistar e manter posições e o que conquistou, afastou-se progressivamente da amizade e da solidariedade, perdeu contato com a sutileza e o amor e negligenciou os anseios mais profundos da alma.
Aos 35 anos, alcancei a posição de diretora executiva de recursos humanos em uma grande corporação. Lá, permaneci até os 39. A exaustiva rotina profissional levou-me ao limite. Precisava estar alerta e processando problemas 12 horas por dia, sete dias por semana, sem contar as noites insones. Pouco a pouco, meu corpo começou a enviar-me alarmantes sinais de cansaço, com a perda gradativa de energia e vigor. Aproximando-me dos 40 anos, e ainda sem filhos – com a pretensão de tê-los, eu precisava parar. Sofrida e corajosamente, resolvi dar-me um tempo.
Neste intervalo, confesso não estar sendo fácil conciliar as estereotipadas pressões pelo sucesso, que são moeda corrente no mundo corporativo, com os anseios de minha alma. Mas tem valido a pena cada segundo de vida e cada descoberta. Tenho dedicado tempo às pessoas que aprecio, aos assuntos de que gosto, tenho me aprofundado em temas que sempre quis explorar e tenho dado espaço para estudar. Tenho dedicado tempo a arte e a cultura, a natureza e ao corpo. Tenho dormido mais, me alimentado melhor, e meu corpo já responde dando sinais de vitalidade e saúde. Dedico meu tempo a projetos com empreendedores que sonham com um futuro melhor para suas empresas e pessoas. Estou certa de estar usando o meu conhecimento a favor da minha evolução e do outro.
Sempre me intrigou a inversão de valores da vida corporativa. Despendemos 90% do nosso tempo com pessoas que não necessariamente nos agradam e somente 10% dele com as pessoas que amamos. Estamos sempre contemporizando os confrontos com as primeiras, porque o manual do comportamento ideal assim manda. Mas, em relação às segundas, diante de qualquer contradição, partimos logo para o ataque. Há algo de errado nessa formula. Como esperar que ela não resulte em tristeza?
Certamente, voltarei a navegar no oceano corporativo. Minha experiência neste universo é rica e tenho ainda muito a dar e aprender. Porém, tenho certeza de que, mais consciente, fazendo escolhas significativas que combinam com a minha verdadeira natureza. Na pausa, aprendi a valorizar o tempo e tornei-me mais criativa. Quando estamos atolados pelas pressões de produtividade, sufocados por tarefas enfadonhas e repetitivas, não conseguimos ver o novo e refletir maduramente sobre as escolhas. Apenas preenchemos os minutos, as horas e os dias com atividades automatizadas. Iludimo-nos, pensando que estamos fazendo grandes coisas. Mas, em algum momento, a ficha cai, e nos damos conta de que esquecemos de viver e da alegria de estar vivos, de apreciar o belo e até de praticar o bem.
Foi buscando contribuir para a reflexão sobre estes temas que criei o portal www.thenewlife.com.br. Meu objetivo é alertar as gerações que estão chegando e apresentar novas alternativas de vida, de atitude profissional e de desenvolvimento pessoal. Acho que todos que estão nesta roda-viva devem ter a coragem de abrir diante dos próprios olhos o grande livro secreto de suas vidas. E, na medida do possível, compartilhar suas experiências, contribuindo para a quebra deste ciclo vicioso, que só tende a piorar e destruir a beleza da vida e o prazer das relações duradouras.
Um dos legados da última visita do Dalai Lama ao Brasil, ocorrida em 2006, foi, para mim, sua declaração de que tempo é vida. Se usas mal o teu tempo, ele disse, desperdiças tua vida. O tempo não retorna e, se perdido, não o encontras mais. É um bem escasso e precioso. Portanto, respeita-o, aprende a apreciá-lo e faz dele o teu grande tesouro de multiplicação de alegrias.
Cristina Aiach Weiss é a idealizadora deste portal. |