Detentor de um currículo admirável, no qual se destaca o título de PhD em Economia pela Universidade de Cambridge, Inglaterra, o economista, filósofo e escritor Eduardo Giannetti da Fonseca é um dos mais conceituados intelectuais do Brasil. Graduado em economia e ciências sociais pela USP e professor do Ibmec São Paulo, Giannetti soube conciliar aptidões com suas aspirações profissionais. Não é por acaso que enveredou pelo campo da filosofia, que lhe permitiu entender as motivações humanas e as estratégias que os indivíduos constroem para alcançar seus objetivos.
Autor de livros consagrados, como "Auto-engano", "Felicidade" e "O valor do amanhã" – ensaio sobre a natureza dos juros, Giannetti fala, nesta entrevista exclusiva a thenewlife, sobre a busca da felicidade no mundo e no mercado de trabalho.
Qual é o seu conceito de felicidade? Não trabalho com o conceito fechado de felicidade, mas com duas possibilidades: a de estar feliz e a de ser feliz. O estar feliz é um sentimento momentâneo. Já o ser feliz é uma avaliação que o indivíduo faz acerca da sua vida como um todo.
Há pesquisas capazes de medir o nível de felicidade das pessoas? As pesquisas que analisei têm como foco principal o fato de as pessoas serem felizes. Nestes estudos, as pessoas respondem se estão satisfeitas, moderadamente satisfeitas ou insatisfeitas com a vida que têm. Assim, é possível comparar os padrões de respostas ao longo do tempo, em diferentes países, e apurar a evolução da felicidade, ou bem-estar subjetivo.
A que conclusões estes estudos já chegaram? Uma das teses mais incríveis, do meu ponto-de-vista, é a de que existe uma proporção muito maior de infelizes e de suicidas entre os desempregados, nos mais diferentes países – e mesmo nos países que têm seguro-desemprego generoso. Isso quer dizer que o nível de felicidade não está relacionado ao dinheiro que se recebe por mês, mas, sim, à maneira como a pessoa se percebe na sociedade. De modo geral, as pessoas que não encontram ocupação estão muito menos felizes do que a média da população, ainda que tenham algum tipo de assistência social, como salário-desemprego.
E o nível de renda? Por esses estudos, não existe qualquer evidência de que o acréscimo de renda se traduza em ganho de bem-estar subjetivo. Ou melhor: quando a renda é baixa, o aumento do salário, por exemplo, se traduz em melhoria da felicidade. Mas, quando um país alcança uma renda média de 10 mil a 15 mil dólares por habitante/ano, o vínculo com o bem-estar subjetivo se torna praticamente inexistente. Países muito ricos, como os EUA e o Japão, que tiveram várias décadas de crescimento econômico, não apresentaram mudanças na proporção de pessoas que se declaram felizes, medianamente felizes e infelizes. O que é uma novidade. Porque a gente imaginava antes que, quanto maior a renda média por habitante, mais pessoas se sentiriam felizes. Mas não há evidência que demonstre isso.
Por que a maneira como a pessoa se percebe na sociedade é tão importante? Uma hipótese para explicar isso é que, a partir de certo nível de renda, quando a pessoa já satisfez algumas necessidades básicas, ela passa a prestar muito mais atenção à sua posição relativa frente à comunidade e a seu grupo de referência do que ao seu poder de compra em termos absolutos. É uma característica da psicologia humana: a partir de certo momento, você está mais preocupado em se comparar com os outros do que a olhar para sua situação isoladamente. Um exercício que faço com meus alunos explica bem o que estou dizendo. Sugiro a eles duas hipóteses: se todos preferem ganhar R$ 100,00 em uma sociedade em que todos ganham R$ 50,00, ou ganhar R$ 150,00 em uma sociedade em que todos ganham R$ 200,00. De modo geral, os alunos preferem a primeira situação, embora, objetivamente, estejam melhores na segunda.
Existe uma tendência de busca de qualidade de vida, mesmo que isso ocorra em detrimento da renda? Para pessoas cuja renda ainda é muito baixa, quase todo tipo de sacrifício é feito para se alcançar um rendimento que lhes permita satisfazer necessidades elementares e básicas.A partir de certo nível de renda, porém, o controle que a pessoa tem de seu tempo torna-se muito mais importante do que um eventual acréscimo de rendimento. Esta é, sim, uma tendência na sociedade moderna. Mas ainda é grande o número de pessoas que preferem sacrificar sua autonomia para aumentar o seu nível de renda. É bom que se diga, no entanto, que essas pesquisas revelam o ponto-de-vista das sociedades ocidentais, dos países mais desenvolvidos do mundo. Há uma tentativa mundial de sair deste círculo vicioso, deste tipo de “corrida armamentista do consumo”: um padrão de competição no qual as pessoas trabalham cada vez mais, para gerar um nível de renda cada vez maior, e, apesar disso, não se tornam mais felizes com a vida.
O que essas pesquisas revelam sobre o Brasil e o brasileiro? O Brasil apresenta um resultado curioso nestas pesquisas sobre felicidade. Quando perguntados sobre sua situação individual, dois terços dos brasileiros se consideram felizes. No entanto, menos de um terço da população acha que o Brasil é uma nação feliz. Isso provavelmente acontece porque, quando olha para si, o brasileiro tem em mente sua subjetividade e o seu modo de encarar a vida. Existe, também, uma espécie de exibicionismo típico do brasileiro, segundo o qual se declarar infeliz é reconhecer uma derrota pessoal e assumir uma condição que não se deseja tornar conhecida publicamente. No entanto, ao responder sobre os demais, e sobre o país como um todo, o brasileiro olha para condições objetivas, para a precariedade da vida material, para a falta de segurança e emprego. E, por isso, não considera o Brasil feliz.
E quando olhamos para o mercado de trabalho no Brasil? Pesquisas recentes mostram que há muita insatisfação quanto ao trabalho entre os executivos brasileiros. Isso é preocupante, porque a pessoa que não sente satisfação naquilo que faz encontra pouco motivo para se aprimorar profissionalmente. Por outro lado, pessoas que sentem algum grau de realização na sua atividade profissional acabam se tornando melhores profissionais e obtendo melhores resultados. Por isso, é muito importante para as empresas criar possibilidades e ambiente para que as pessoas se sintam identificadas com aquilo que fazem. No século XIX, Karl Marx já dizia que o assalariado só se sentia ele mesmo quando não estava trabalhando. Hoje, além de ser eticamente condenável, isso é um péssimo negócio para qualquer empresa. |