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Conhecimento e ousadia para vencer

Nasci em Bauru, em 1931 e, desde menino, sonhava com coisas impossíveis. Nunca imaginei, porém, que meus sonhos me levariam tão longe. Desde adolescente, quando eu ainda era estudante de aeromodelismo, incomodava-me com o fato de precisar estudar em material importado. A mim, indignava-me saber que o Brasil, apesar de ter praticamente o mesmo tempo de vida dos Estados Unidos, ainda estava na pré-história com relação à tecnologia. Queria mudar o rumo desta história. E, por isso, decidi entrar na Força Aérea Brasileira (FAB).

Tinha acabado de voltar de um curso nos Estados Unidos e percebi que o setor de aviação, naquele país e no mundo, estava seguindo a tendência de construir aviões cada vez maiores, diminuindo a possibilidade de pequenas cidades terem transporte aéreo. Havia mercado para quem estava disposto a desenvolver aviões de menor porte, com no máximo 20 lugares, desde que fossem robustos suficientes para operarem em pistas pequenas, geralmente com infra-estrutura precária. Voltei ao Brasil disposto a criar um protótipo, feito originalmente com peças de reposição importadas. Ali, diante de hangares e aviões, construí, sob o olhar reprovador de meus superiores, aquele que seria o primeiro modelo de avião brasileiro: o Bandeirante.

Como tudo que é novidade, minha idéia sofreu críticas. O máximo de apoio que eu consegui foi da FAB, que me cedia o material para construção do protótipo. Ninguém acreditava que o avião, todo remendado, iria voar um dia. Mostrei a todos que estavam enganados.

O sucesso do empreendimento e o meu conhecimento da aviação deram-me o alicerce necessário para a criação da Empresa Brasileira de Aeronáutica, a Embraer, em 1970. Nela, permaneci por 17 anos e a ela voltei, em 1994, para dar início ao processo de privatização. Estive, ainda, à frente da Petrobras (biênio 1986-1987) e fui nomeado ministro da Infraestrutura durante o governo Itamar Franco. Há quatro anos, fundei a Pele Nova Biotecnologia, da qual, hoje, sou presidente do conselho. Esta empresa surgiu da mesma maneira que a Embraer: observando uma oportunidade mercadológica, quando chegou, à minha mesa, um plano de negócios sobre um produto que tem enorme capacidade de provocar, ao contato com o organismo, uma vascularização sanguínea intensa, possibilitando a correção de enfermidades em animais e humanos.

Como se não bastasse tanto desafio, fui convidado para ser presidente da empresa mantenedora da Universidade de Santo Amaro (Unisa), a Organização Santamarense de Educação e Cultura (Osec) – o que aceitei não apenas por ser um fã incondicional da Educação, porque insisto que ela tem uma capacidade de transformação enorme, mas também porque sou movido pela oportunidade de inovação.

Tive diversas experiências frustrantes ao longo da minha carreira. Lembro-me de um chefe que, ao me chamar para uma reunião, sequer olhou para mim quando entrei em sua sala, preferindo, ao contrário, continuar lendo o jornal enquanto me fazia um comunicado. Sai da sala inconformado e me prometendo jamais agir daquela forma, com quem quer que fosse. Afinal, o mínimo que as pessoas merecem é a nossa atenção e respeito.

Apesar de me deparar com atitudes desrespeitosas como esta ou com a descrença alheia em meus sonhos, a palavra desistir nunca esteve presente no meu dicionário. Posso tropeçar, e até cair, mas acredito que devemos andar de novo e seguir nossa jornada, ainda que seja necessário ponderar e mudar de direção. E esta confiança eu consegui tendo conhecimento de mercado que me serviu de base para o meu processo criativo. Aliado a isso, existe a preocupação constante de realizar meu trabalho da melhor maneira possível, com fé, perseverança e, principalmente, muito amor pela profissão e o estudo. Estes ingredientes foram os que me levaram a ter êxito e, acredito, formam a base para se vencer na vida.

Ozires Silva é presidente da Organização Santamarense de Educação e Cultura (Osec), presidente do conselho da Pele Nova Biotecnologia. Foi fundador da Embraer, esteve à frente da Petrobras (biênio 1986-1987), foi nomeado ministro da Infraestrutura durante o governo Itamar Franco e, entre 2000 e 2002, presidiu a Varig.

Organizado por Juliana Tavares, repórter do portal TheNewLife.

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