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É muito difícil não ser inteira

Minha experiência lidando com o constante conflito entre os meus valores pessoais e os valores impostos por aquele ambiente de trabalho

Pessoalmente, sempre adorei trabalhar. Muitas vezes, passo do limite: não percebo que já é tarde e continuo no escritório. Meu envolvimento nasce de um impulso interno, de um prazer em fazer e ajudar os outros a fazer.

Mas, ultimamente, vinha encontrando dificuldade em trabalhar com aquela vontade e alegria de outros tempos. E entendo muito bem quando alguém me diz que não está feliz com o seu trabalho. Não é um stress produzido apenas pelas muitas horas de trabalho diárias. Este seria até fácil de resolver. É um stress psicológico, moral, ético, sei lá. É presenciar uma loucura tomando conta dos ambientes de trabalho e sofrer calado. Ou então falar e sofrer as conseqüências.

Desde muito cedo, eu sabia que queria trabalhar, estar no meio de pessoas das mais diversas formações, interagir com indivíduos dos mais variados graus de experiência. Sentia que o trabalho seria uma força enriquecedora e transformadora em minha vida. E tem sido. Desde a primeira experiência de trabalho temporário durante as férias, quando conheci de perto uma estrutura empresarial, considero fascinante e ao mesmo tempo assustador viver mudanças nos ambientes de trabalho e as relações resultantes.

No começo da carreira, a gente quer mais é crescer, fazer mais para ter mais. Aí, a busca foi por ambientes de trabalho estimulantes, competitivos, com oportunidades de salário e promoção. Mas sempre busquei também os ambiente mais humanos, mais preocupados com o relacionamento interpessoal, com bem-estar que gera resultados positivos. Assim, fui mudando de emprego, aceitando desafios profissionais cada vez maiores.

Não que eu tivesse isso claro no começo ou mesmo em etapas mais avançadas da minha carreira. Mas agora, que parei um tempo para repensar antes de voltar ao mercado de trabalho, vejo claramente o que me fazia sentir realizada.

Tive muitos modelos de liderança. Fui dura e muito crítica com alguns deles. E, frente ao desafio de exercer tal liderança, volto a vasculhar tais modelos e entendo que aqueles que conseguiram demonstrar seu lado humano, sua ética, sua preocupação com o indivíduo, estes definiram para mim um padrão de liderança – a liderança do futuro. Não por acaso, são também os mais respeitados no mercado, os que construíram empresas de sucesso e igualmente humanas.

E, aqui, vejo um dos grandes conflitos do momento: o foco das empresas passou a ser a redução de pessoal, a produtividade, a lucratividade, enfim, agradar os acionistas. Não vejo nenhum problema em se buscar a lucratividade, o ponto é a forma como as empresas agem com os indivíduos, que, afinal, também são consumidores e clientes.

Muitas empresas buscam modelos de liderança focados em resultados rápidos, com profissionais de perfil ambicioso. Para alguns, ambição por ambientes de trabalho respeitosos, saudáveis e conseqüentemente criativos, produtivos e lucrativos não é ambição. Ambição é chegar ao número de forma rápida, “profissional” – o que dará a esse líder a chance de logo sair da posição que ocupa e ir além, numa progressão acelerada e aparentemente sem fim.

Aí, é até divertido ver nessas empresas um modelo absolutamente padrão para se chegar ao número: padrão no discurso, padrão no vestuário, padrão nos benefícios oferecidos aos líderes. Até na hora de celebrar as vitórias existe um comportamento padrão. Nada de errado nisso, se você gosta de viver segundo um padrão. O problema é quando se deixa de lado a base: a ética, os valores humanos, os indivíduos. Que mal há em agir com um funcionário que será demitido como você gostaria que agissem caso estivesse no mesmo lugar? O que me parece é que todos estão com medo desta nova onda de valores baseados em respostas e resultados rápidos e não mais em relações humanas. Então, preferem seguir a cartilha e o conselho dos consultores do que seguir a intuição, que todo líder deve ter.

Dizem que a valorização é pelo talento, que o profissional é o mais importante. Mas não permitem que esse profissional pense diferente do padrão. Se pensar e questionar, é porque é resistente às mudanças. Então, eu sou resistente! Sou resistente a colocar em funções de qualquer nível pessoas que não sabem pensar nos outros, no todo, nas conseqüências de médio e longo prazos que a fórmula do resultado imediato terá sobre marcas, empresas, sociedade e mundo.

Por que tantos cursos de modelo de liderança e, ao mesmo tempo, tantos empregados insatisfeitos com seus líderes ou com a falta deles? Os líderes são cada vez mais jovens – e isso é bom. Mas será que esses jovens estão preparados de verdade para lidar com indivíduos? Estão prontos para lidar com números: quanto a isso, não há dúvida. Mas ainda estão em fase de crescimento e amadurecimento pessoal e profissional.

Hoje, a troca do profissional experiente e mais ponderado pelo jovem imediatista prevalece. Sofrem os novos profissionais que se deparam com líderes que acreditam que conseguem atingir seus objetivos apenas com base na hierarquia. E, assim, toda uma nova geração de profissionais vai-se formando, acreditando que deve seguir o modelo de sucesso atual, sem pensar nas relações humanas, tratando seus funcionários de forma desrespeitosa, com foco prioritário em seu target, em seu salário. Até que, um dia, alguém diz ao jovem imediatista que ele também será trocado.

Volto à minha experiência profissional e vejo quantas vezes recuei frente ao desafio do crescimento vertical, com medo de me transformar em um desses modelos-padrão, sem personalidade própria, sem estilo pessoal, tendo que anular minhas crenças e valores em prol dos interesses únicos da corporação. Também recuei porque acreditava ser jovem e ter pouca maturidade para lidar com indivíduos e não com números.

Vejo também quantas vezes fui colocada em situações nas quais agi de maneira que hoje avalio como detestável, arrogante, infantil mesmo. Não é fácil e ninguém é totalmente bom ou mal. Eu estou tentando acertar a medida no trabalho, mas vejo que, com a maturidade, com meus outros interesses em diversas áreas, principalmente a espiritualidade, é mais difícil ver e não questionar, não criticar. É muito difícil não ser inteira.

Por isso, quando me vi diante da opção de abrir mão de mim mesma ou abrir mão do emprego, de certa forma escolhi abrir mão do emprego. E resolvi dar um tempo. Hoje, me vejo como uma profissional madura, porque parei e pensei. Uma profissional não tão preocupada em ter, mas em ser. Uma profissional que busca construir relações empresariais mais saudáveis, mais criativas, mais respeitosas e, com certeza, mais lucrativas. Admiro todos aqueles com quem convivi em meu ambiente de trabalho, até aqueles que com quem definitivamente não tenho a menor afinidade de valores ou de forma: todos eles me deram material para construir uma visão de presente e futuro profissionais mais saudável e humano.

Paula Felice escreveu este texto exclusivamente para unauguirar esta seção Minha Experiência no Portal TheNewLife. Paula é publicitária de formação. Trabalha como profissional de pesquisa de mercado há mais de vinte anos. Atua em empresas nacionais e multinacionais, no setor de prestação de serviços e indústria.

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