A Ética como Estratégia Empresarial
Em 2001, a CPFL lançou o seu primeiro Código de Ética, hoje incorporado à realidade da empresa resultando em diminuição de denúncias de fraude e assédio moral.
Por Juliana Tavares
Muito tem se falado sobre ética, mas restam dúvidas sobre como fazer deste conceito uma bandeira defendida também pelo prático mundo corporativo. Uma pesquisa realizada pela consultoria KPMG, em 2004, junto a mil empresas brasileiras, mostrou que, assim como vemos na política ou nas relações interpessoais, a falta de ética no ambiente corporativo também é prejudicial aos negócios. De acordo com a pesquisa, 69% das companhias já haviam tido problemas com fraudes e corrupção. Na maior parte dos casos, o prejuízo foi inferior a R$ 1 milhão – mas, em 49% dos episódios, a empresa não conseguiu reverter as perdas.
Para Douglas L. Flinto, diretor-presidente do IBEN (Instituto Brasileiro de Ética nos Negócios), as dúvidas referentes ao conceito têm uma razão de existir: embora muito alardeada, a ética ainda é praticada por um número reduzido de empresas. Ele mesmo foi vítima dessa falsa ideologia. "Descobri que meu chefe estava roubando a empresa e, seguindo o código de ética da organização, fiz uma denúncia ao diretor corporativo. Vinte dias depois, fui demitido por quebra de confiança", relata. As reflexões e pesquisas que decorreram após esse triste episódio o motivaram a criar o IBEN, que, hoje, pretende levar informações sobre ética e cidadania também para crianças e jovens.
Segundo Flinto, "Atualmente, há um interesse em avaliar e premiar as corporações que possuam as 'melhores práticas' nas relações com os seus interlocutores públicos e privados, pela qualidade e excelência no atendimento ou pela transparência e retidão de comportamento", afirma. "Uma pesquisa que realizamos em 2006 (http://www.eticanosnegocios.org.br), mostrou que um número significativo das melhores e maiores empresas em atuação no Brasil já adotam, divulgam e se utilizam do código de ética no dia-a-dia dos seus negócios, para sanar dilemas éticos e realizar os padrões de conduta funcional. Além disso, 80% dessas empresas já realizam ações de responsabilidade social e ambiental, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da sociedade e buscando o desenvolvimento sustentável".
A CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz) é uma das que enxergam a ética como parte fundamental da estratégia empresarial. Em 2001, lançou o seu primeiro Código de Ética. Desde então, promove, anualmente, um ciclo de seminários dirigidos para colaboradores (da alta gerência até eletricistas), fornecedores e clientes. Em 2006, com a entrada da CPFL no mercado de ações e com a necessidade de incluir as exigências da SOX (lei Sarbanes-Oxley, que busca garantir a criação de mecanismos de auditoria e segurança confiáveis nas empresas) nas diretrizes empresariais, a CPFL atualizou o seu Código de Ética, deixando-o ainda mais denso.
"Mais do que falar unicamente sobre proibições, regras e procedimentos, cada ciclo de seminários serve para discutir valores e crenças, fazendo com que a reflexão sobre o tema seja ainda mais rica. Para tanto, contamos com o apoio de dois educadores e filósofos, o Mario Sergio Cortella e Alípio Casali (na foto)", explica Roseli Cordeiro, analista de comunicação da CPFL. "Mais de 2000 colaboradores são envolvidos nestas palestras, que, neste ano, tratam de assédio moral, transparência, conflito de interesses, qualidade de vida, voluntariado, pacto global da ONU em decorrência da questão dos direitos humanos e práticas anticorrupção".
Cada ciclo é dividido em duas partes: na primeira, é feito apenas um aporte conceitual. Na segunda, é realizado um trabalho prático, no qual cada participante aponta as vulnerabilidades éticas do seu cotidiano. "A proposta é identificar as questões éticas de cada colaborador e fazer com que o Comitê de Ética crie soluções para estes problemas".
É bom que se enfatize: apenas criar um código de conduta não é suficiente. Segundo Roseli, é preciso realizar todo um processo de mudança da cultura organizacional. "E isso demanda tempo e trabalho", revela. "Principalmente porque os assuntos que envolvem a ética geram desconforto e requerem transformações comportamentais sérias".
Os benefícios, porém, são concretos. De acordo com a executiva, desde que este programa foi incorporado à realidade da empresa, as denúncias de fraude e assédio moral, por exemplo, diminuíram. E a imagem da CPFL, em especial para a mídia, melhorou consideravelmente. "Prova é que cresceram as notas espontâneas positivas nos veículos de comunicação".