Doutor em Educação, professor do departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP, professor da área de Educação e Comportamento Organizacional da Fundação Dom Cabral, Mário Sérgio Cortella é hoje um dos mais disputados conferencistas quando o tema é ética, responsabilidade social ou gestão do conhecimento. Ex-Secretário Municipal de Educação de São Paulo, autor de diversos livros (entre eles, Descartes, a paixão pela razão), apresentador dos programas Diálogos Impertinentes (PUC-SP / Folha de S. Paulo / Sesc-SP) e Modernidade (TV Senac), ele vem se tornando também uma figura obrigatória nas palestras e workshops promovidos no ambiente empresarial. Nesta entrevista exclusiva ao portal thenewlife, Cortella falou da ética e do futuro.
Qual a importância da ética no ambiente corporativo? A ética é uma das bases de sustentabilidade do futuro. É um requisito fundamental para organizações com ações nas bolsas de valores. É uma exigência que a legislação internacional vem impondo. Comporta requisitos como transparência de objetivos e ações, regularidade na qualidade dos produtos e serviços oferecidos, mecanismos efetivos contra a corrupção, o trabalho infantil, a degradação ambiental, o assédio moral e sexual. Trata-se algo que precisa ser profundamente assimilado e mantido pelos gestores e por todos aqueles que atuam nas corporações.
O que fazer para promover essa assimilação? O ponto de partida é sensibilizar as pessoas por meio de seminários e workshops que tragam esse debate para dentro das empresas e possibilitem o desenvolvimento de um código de ética. Este será o registro formal daquilo que o grupo entende ser necessário para uma convivência saudável. No entanto, a ética é uma plantinha frágil, que precisa ser regada todos os dias. Portanto, não podemos nos contentar em redigir um bonito código de ética, apresentá-lo em letra de forma, e, depois, esquecê-lo durante o resto do ano. Ao contrário, a ética deve fazer parte do calendário de ações da organização, de modo a manter sua vitalidade. A CPFL Energia, por exemplo, já está no terceiro ciclo de seminários sobre ética – uma iniciativa que envolve todos os 10 mil empregados da organização no Estado de São Paulo e que, neste ano, reunirá também os fornecedores da empresa, para que sua cultura ética não fique restrita apenas a quem atua dentro dela.
Como a ética se articula com a qualidade de vida dos colaboradores da empresa? Ainda existem organizações que entendem que proporcionar qualidade de vida aos colaboradores se restringe a construir uma pista de caminhada ou convidar os familiares de seus funcionários para visitar a companhia uma vez ao ano. Isso é simplificar demais o conceito de qualidade de vida, que engloba todo um conjunto de iniciativas. Entre elas, deve-se ressaltar, sem dúvida, a educação pela ética e para a ética, com medidas capazes de promover dentro da empresa aquele conjunto de valores que mencionamos atrás: transparência de objetivos e ações, regularidade na qualidade dos produtos e serviços, mecanismos efetivos contra a corrupção, o trabalho infantil, a degradação ambiental, o assédio moral e sexual. É claro que as empresas devem investir em serviços que melhorem as condições de trabalho de seus colaboradores, como a instalação de uma academia empresarial, por exemplo. Mas também devem promover a educação permanente e um plano de carreira transparente. Enfim, oferecer qualidade de vida ao colaborador é proporcionar-lhe um ambiente saudável, no qual as pessoas recebam, além da recompensa salarial, o reconhecimento de que aquilo que realizam é importante para a companhia.
É possível equilibrar a vida pessoal e a vida profissional? Não gosto da separação entre vida pessoal e vida profissional, porque dá a impressão de que são vidas distintas, quando se trata de uma coisa só. Toda vez que há um desequilíbrio, com a inflação de uma parte em detrimento da outra, forma-se um processo de infelicidade. Qualidade de vida é afastar e impedir sofrimentos desse tipo.
As políticas empresariais podem contribuir para a superação desses desequilíbrios? Sem dúvida. As pessoas ainda confundem o trabalho com uma atividade desagradável que só produz exaustão e cansaço. É preciso que as empresas tenham inteligência estratégica para construir comunidades laborais nas quais as relações se baseiem no respeito ao próximo e na colaboração mútua. As empresas que já perceberam isso são as que estão em primeiro lugar nas pesquisas sobre o melhor lugar para se trabalhar. O Serasa, por exemplo, vem, há anos, ganhando esse prêmio, não só porque investe em excelentes condições de trabalho, como também porque incorpora em sua cultura mecanismos de inclusão, com a presença maciça de afrodescendentes e de pessoas com dificuldade de locomoção ou com orientação sexual diferenciada do padrão usual. Que fique claro: nada disso garante que haverá ausência de conflito. Os conflitos fazem parte do convívio humano e ajudam a evolução de qualquer comunidade. O que não pode ser incentivado é o confronto, que nada mais é do que a anulação do outro.
Por que algumas empresas estão incentivando seus profissionais a incorporar conhecimentos de outras áreas? Isso é uma questão de inteligência estratégica. Hoje, existe um nível muito maior de complexidade na abordagem dos fenômenos, na estruturação da produção, no ordenamento dos modos de trabalho, na configuração das ferramentas tecnológicas. A organização social, especialmente no campo produtivo, sofreu uma mudança brutal. E olhares focados numa única direção já mostraram toda a sua insuficiência na busca de soluções eficazes para os problemas atuais. Para entender este mundo e responder com eficácia aos seus desafios, não basta possuir uma habilidade profissional específica. É preciso sensibilidade estética e valores éticos. É preciso capacidade reflexiva e maturidade emocional. Daí a importância da filosofia, das ciências humanas, da arte. Quando oferece cursos desse tipo para seus colaboradores, a empresa amplia seu repertório de conhecimento e aumenta sua possibilidade de influir positivamente na construção do futuro. Desenvolvimento sustentável também diz respeito ao desenvolvimento do capital humano. Acredito que essa é uma tendência irreversível para os próximos anos. As empresas que não perceberem isso, em breve, deixarão de existir. |