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Principal responsável pela elaboração teórica da mecânica quântica, o grande físico dinamarquês foi também um filósofo profundo. Seu Princípio da Complementaridade é um antídoto contra o totalitarismo.
Por José Tadeu Arantes
A Realidade está sempre além de nossa capacidade de descrição. Por mais perfeito que seja o “mapa”, ele jamais poderá dar conta de toda a riqueza e complexidade do “território”. Modelos cada vez mais sofisticados, teorias cada vez mais acuradas têm que ser produzidos, geração após geração. Jamais chegamos ao modelo definitivo, jamais chegamos à teoria final. A incompreensão desse caráter infinito do processo cognitivo está na raiz do totalitarismo. O totalitário é, essencialmente, alguém que confunde o “território” com o “mapa”. Acha que chegou. Acha que encontrou. E faz de uma fórmula ou de um livro o seu deus – ignorando que Deus se esconde por trás de todas as fórmulas e livros.
Este tema tem sido objeto de místicos e filósofos desde a Antiguidade. Em épocas mais recentes, passou a mobilizar também a inteligência de grandes cientistas. No novo contexto, uma das contribuições mais positivas para sua compreensão foi dada pelo físico dinamarquês Niels Bohr (1885-1962). Ao trabalhar no desenvolvimento teórico da mecânica quântica, ele constatou que, para descrever exaustivamente os fenômenos observados, era necessário recorrer a modelos mutuamente excludentes, porém dotados de coerência interna. E expressou tal constatação em seu famoso Princípio da Complementaridade.
Mais tarde, procurou fazer da complementaridade um princípio filosófico geral, aplicável aos mais variados campos do conhecimento. E, quando foi nomeado cavaleiro, no final de década de 1940, adotou como motivo de seu brasão de armas o símbolo chinês do Yin e Yang, encimado pela frase latina Contraria sunt complementa (Os opostos são complementares). Como orientação para a vida prática, o Princípio da Complementaridade oferece excelente antídoto contra todas as formas de totalitarismo e constitui um estímulo ao pluralismo ideológico – ingrediente imprescindível para a construção de sociedades realmente livres e democráticas.
Resumo de uma vida
Prêmio Nobel de 1922, Niels Bohr é considerado, depois de Einstein, o maior físico do século XX. E um dos homens que mais radicalmente influenciaram a visão de mundo contemporânea. Seu modelo quântico do átomo, publicado em 1913, é o marco inicial da física atômica. Nos anos 20, inspirou e liderou toda uma brilhante geração de físicos de várias nacionalidades, que, num esforço coletivo, estruturaram a mecânica quântica, revolucionando os conceitos da ciência. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, seus cálculos sobre o núcleo do átomo trouxeram novos esclarecimentos sobre o fenômeno da fissão nuclear, abrindo caminho para a construção da bomba atômica.
Embora tenha participado por dois anos do projeto de produção da bomba, Bohr – assim como Einstein – logo se conscientizou da terrível perspectiva que ela trazia para a humanidade. Já em 1944, tentou, inutilmente, persuadir o primeiro-ministro britânico Churchill e o presidente norte-americano Roosenvelt da necessidade de negociações internacionais, incluindo a União Soviética, para tratar da questão. Em plena década de 1950, contaminada pela “guerra fria” entre Estados Unidos e União Soviética, empenhou-se a fundo na luta por um uso pacífico da energia atômica e, em carta pública à ONU, clamou pela construção de um “mundo aberto”, convencido de que o livre trânsito de pessoas e idéias era indispensável ao controle dos artefatos nucleares.
Bohr foi uma das mais festejadas celebridades da história da ciência. A mansão com a qual foi presenteado, em 1931, pela Real Academia Dinamarquesa de Ciência e Letras tornou-se local de peregrinação obrigatório para grandes cientistas, artistas e chefes de Estado em visita à Dinamarca. Um divertido cartoon publicado na imprensa dinamarquesa o mostra, já velhinho, quase achatado pelo peso das medalhas, comendas, diplomas e demais honrarias que recebeu ao longo da vida.
A construção de um novo paradigma científico
Ao propor sua versão da mecânica quântica – que ficou conhecida como Interpretação de Copenhague – Bohr e colaboradores abandonaram dois pressupostos fundamentais da visão de mundo clássica: 1) o de que as “leis” da natureza determinam rigorosamente os fenômenos naturais; 2) o de que o cientista pode conhecer essas “leis” e, portanto, descrever os fenômenos “de fora”, com total objetividade. Na Interpretação de Copenhague, a incerteza em relação às grandezas investigadas e a interferência do observador no fenômeno que pretende observar, modificando suas características, são reconhecidas como algo inerente ao processo de conhecimento. Não o resultado de uma atividade científica deficiente, mas uma limitação natural de nossa capacidade de conhecer.
A Interpretação de Copenhague está longe de ser a última palavra no assunto. Desde os anos 1930, quando assumiu seus contornos definitivos, explicações ainda mais ambiciosas e radicais foram apresentadas por físicos como o norte-americano David Bohm e outros. Ela continua aceita, porém, pela maioria da comunidade científica. E, mesmo que venha a ser substituída, em futuro próximo, por uma concepção mais profunda e abrangente da realidade, isso não lhe tira o mérito histórico de ter sido marco inicial da abertura de mentalidades que hoje se expressa na busca de novos paradigmas para as ciências.
Toda a tradição racionalista apóia-se na rígida distinção entre sujeito e objeto. Aquele que pensa e aquilo que é pensado. A física clássica tratava essa distinção como óbvia. Ninguém em são consciência confundiria a maçã que cai da árvore com a mente brilhante de Isaac Newton, capaz de elaborar uma teoria acerca do fenômeno. Porém, quando chegamos a áreas de fronteira do conhecimento, como ocorreu na formulação da teoria atômica, essa distinção já não nos parece tão clara.
O “eu” que observa o “eu”
Bohr teve a percepção disso talvez antes mesmo de ouvir falar em átomos. Foi através de um livro, lido na juventude e do qual jamais se separou até o final de sua vida. Já maduro, ele mantinha um exemplar desse livro, todo sublinhado e inúmeras vezes manuseado, em seu escritório de diretor do Instituto de Física Teórica de Copenhague. Sempre que um novo físico estrangeiro chegava para uma temporada de trabalho no Instituto (e isso ocorria freqüentemente, pois, graças a Bohr, a capital da Dinamarca se transformara na Meca da física de vanguarda de antes da Segunda Guerra Mundial), o livro lhe era passado. Aquilo funcionava como uma espécie de ritual de iniciação para o visitante.
Tratava-se de uma novela do escritor Poul Martin Møller, As aventuras de um estudante dinamarquês. Nela ocorre o engraçado diálogo entre dois primos: um dotado de espírito prático; o outro, dado a divagações filosóficas. Quando o primeiro repreende o segundo por ainda não ter arrumado um emprego, este responde: “É por causa de meu estudo sem fim da questão que não realizo nada. Agora mesmo, estou pensando sobre meus pensamentos acerca disso. Sim, estou pensando sobre o fato de estar pensando, e divido a mim mesmo em uma série recessiva infinita de ‘eus’ que se contemplam uns aos outros. Não sei em qual parar e considerar como sendo o ‘eu’ real, e, no instante em que paro, há um outro ‘eu’ parado lá. Torno-me confuso e tomado pela vertigem, como se estivesse encarando um abismo sem fundo, e o pensamento termina numa horrível dor de cabeça”.
O físico Leon Rosenfeld, que foi colaborador íntimo e biógrafo de Bohr, acreditava que, embora se divertisse com as desventuras do pobre estudante, o grande cientista dinamarquês não deixava de vê-lo como uma espécie de caricatura sua. A aguda compreensão de que a realidade está sempre além de nossa capacidade de descrevê-la fazia com que escrever um texto científico fosse para ele uma verdadeira tortura. Apesar da extraordinária capacidade de trabalho e de ser conferencista brilhante quando falava de improviso, sentia enorme hesitação na escolha da expressão escrita adequada aos seus pensamentos, podendo lutar horas e até dias com uma única frase ou palavra. Era como se buscasse comunicar em cada sentença todos os matizes da verdade que podia intuir: as ressalvas, as reservas, os poréns.
Uma famosa anedota a respeito da complexidade da expressão de Bohr nasceu de uma entrevista coletiva sua à imprensa. Depois que levou um tempo enorme tentando explicar determinado assunto de maneira tão completa quanto possível, os jornalistas sentiram-se totalmente à deriva e resolveram pedir socorro a seu irmão, Harald Bohr, um grande matemático, também presente, solicitando-lhe que resumisse a exposição. Harald foi rápido e preciso, e então perguntou ao irmão: “É isso mesmo o que você queria dizer?”. Ao que Niels respondeu, contrariado: “Ora, Harald, você diz isso de maneira terrivelmente clara!”.
A complementaridade dos contrários
Ao estudar o comportamento dos elétrons e outros entes subatômicos, os pioneiros da mecânica quântica perceberam que, dependendo de como o experimento era organizado, eles se comportavam ora como corpúsculos ora como ondas. Os comportamentos corpuscular e ondulatório desses objetos seriam como duas faces da mesma moeda. Para descrever a moeda de forma exaustiva, havia que olhar cada uma delas. Mas era impossível olhá-las de frente ao mesmo tempo. Quando uma face era encarada, a outra se escondia. Desistindo de investigar um nível mais profundo da realidade, no qual a dualidade partícula-onda pudesse eventualmente ser superada, Bohr contornou o problema com o Princípio da Complementaridade. Suas palavras: “Evidências obtidas sob diferentes condições experimentais não podem ser compreendidas dentro de um quadro único, mas devem ser vistas como complementares, no sentido de que só a totalidade do fenômeno esgota as informações possíveis sobre os objetos”.
Cientistas notáveis, como David Bohm, já propuseram outras interpretações para os fenômenos quânticos. Mas o Princípio da Complementaridade continua a ser uma poderosa diretriz para o processo cognitivo. E um irresistível convite ao pluralismo ideológico e à convivência democrática.
José Tadeu Arantes (tadeuarantes@thenewlife.com.br) é o editor do portal The New Life
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