Alexandre Caldini, 44 anos, é administrador de empresas formado pela PUC de São Paulo, onde também foi professor. Fez carreira em marketing, em empresas como Du Pont, Diageo e Novartis. Atualmente, trabalha no Grupo Abril, onde é diretor superintendente das revistas Exame, Você SA e Info. Estudioso da questão da espiritualidade nas organizações, é o nosso entrevistado deste mês.
Você tem feito palestras sobre a espiritualidade nas organizações. Como passou a se dedicar ao tema? Por acaso. Trabalho na Editora Abril, que tem um RH muito atuante. Eles me convidaram para fazer uma apresentação num programa chamado "Professor por um dia" – no qual o funcionário fala para a casa sobre um tema de sua predileção. Juntei os dois assuntos que mais ocupam minha mente: os negócios e a espiritualidade. Assim surgiu a palestra "A espiritualidade nas organizações". O tema acabou interessando muita gente, tanto que já fiz apresentações em locais tão distintos quanto a Febraban e a Fundação Pró-Sangue, a Roche e o Clube Pinheiros, a Credicard e o Colégio Dante Alighieri. Penso que a palestra chamou a atenção porque trata de algo que nos tem incomodado. Na maioria dos casos, o ambiente de trabalho ainda não é agradável nem contribui para a nossa felicidade. Mas deveria! Curioso é que o tema tem gerado interesse no último lugar em que se pensava que ele fosse adequado: nas empresas, o aguerrido território do lucro. Mais curioso ainda é que a espiritualidade tem sido debatida nas empresas também porque é uma forma de garantir o que a empresa mais preza: justamente o próprio lucro.
E o que é ser espiritualizado na organização? Muita gente confunde a espiritualidade necessária e inerente ao ser humano com práticas religiosas ou esotéricas. Não se trata disso. Esse é o primeiro preconceito com relação ao tema. Não estamos falando de transformar a organização numa igreja, nem mesmo de incorporar ao seu cotidiano práticas religiosas. Falamos da espiritualidade simples e genuína, independente de religião. Ser espiritualizado no ambiente de trabalho é esforçar-se por compreender o chefe, o par e o subordinado como iguais: com qualidades e defeitos. É, como dizem os americanos, "colocar-se nos sapatos do outro" – isto é, procurar entender o seu ponto de vista. É, principalmente, cultivar valores e atitudes como boa vontade, compreensão, gratidão, generosidade, gentileza e fraternidade. Uma empresa onde essa prática seja corrente é um melhor ambiente para se trabalhar.
Existe nas organizações uma grande competição pelo poder. Quem atua de modo espiritualizado não entra em desvantagem nessa disputa? Ao contrário. Aliás, esse é o segundo preconceito em relação ao tema. Muitos ainda pensam que um profissional espiritualizado, que age de forma honesta e amistosa com todos, fica enfraquecido na relação profissional. Mas o que é o poder senão a capacidade de influenciar os demais? O poder genuíno não se baseia na opressão, na agressão, no terror. Sêneca tem uma frase que explica bem o assunto: diz ele que toda ferocidade provém da fraqueza. Chefes que massacram seus subordinados fazem-no por fraqueza. Temem ser descobertos em sua humanidade e escondem seus erros e inseguranças. O verdadeiro poder baseia-se na influência aceita de bom grado. Baseia-se no reconhecimento do mérito, da experiência, da maturidade, do conhecimento. Essa autoridade se exerce com fraternidade e justiça. Ela é honesta também com quem chefia, pois lhe dá a possibilidade de não saber tudo, de ser falível, portanto humano. O que "A espiritualidade nas organizações” advoga é que sejamos firmes na gestão do negócio, conquistando vitórias e resultados, mas não a qualquer preço numa política de terra arrasada. Estamos falando de ser “hard on the problems and soft on the people" – duro nos problemas e suave com as pessoas. É possível ser muito competente e firme na gestão profissional e, ainda assim, ser ético, decente e meigo com as pessoas com quem trabalhamos. Em relação a isso, vale lembrar cinco conceitos que freqüentemente confundimos:
- Seriedade não requer sisudez
- Humildade nada tem a ver com fraqueza
- Arrojo é a antítese de arrogância
- Competência não pressupõe competição
- Evolução não deve ser confundida com volubilidade
Muita gente parece acreditar que uma empresa onde impere a gentileza e a boa vontade se torna menos competitiva. Eis o terceiro preconceito que o tema suscita. Trata-se de um grande engano. Ser espiritual não é ser condescendente com a incapacidade e a irresponsabilidade. Tampouco é ser indolente, letárgico ou inconseqüente. O que a espiritualidade nas organizações combate não é a busca de resultados, mas sim a competição predatória. Ela valoriza o resultado, mas também valoriza o ser humano. E é exatamente por valorizar um e outro que combate a competição que violenta as pessoas, gera conflitos e mágoas e só traz infelicidade e doença. Esse modelo de obtenção de resultados, que imperou durante anos, está com seus dias contados, porque não se sustenta. É insustentável por ser insuportável. E é insuportável porque não traz a tranqüilidade necessária e a genuína felicidade para quem dele participa. Ao contrário, só traz sobressaltos e uma vida angustiada. Mas, voltando à sua pergunta sobre ser a empresa espiritualizada mais ou menos competitiva, respondo que, se ser competitiva é gerar bons resultados, então a empresa espiritualizada é muitíssimo mais competitiva que as empresas tradicionais. Por que você acha que, cada vez mais, as empresas se preocupam com o bom ambiente de trabalho? A resposta está no "Guia das Melhores Empresas para Você Trabalhar", da revista Você SA. Empresas que procuram ter um ambiente de trabalho pautado pelo respeito, boa vontade, gentileza e fraternidade apresentam resultados financeiros substancialmente melhores que a média. Compare a relação dos índices de rentabilidade de diferentes recortes do meio empresarial – de acordo com as pesquisas das revistas Exame e Você SA:
- Média das 500 "melhores e maiores empresas brasileiras": 11,31%
- Média das 150 "melhores empresas para você trabalhar": 17,82%
- Média das 10 "melhores empresas para você trabalhar": 26,21%
Ou seja, viver os valores espirituais na organização dá lucro! E muito mais lucro!
Como fazer para transformar o ambiente organizacional hoje vigente em um ambiente mais espiritualizado? Isso já está acontecendo. Por três motivos. Os primeiros dois motivos nós já vimos: a busca do lucro e a incapacidade do modelo atual gerar relações pessoais sustentáveis. O terceiro motivo é que a nova geração de executivos que vem por aí busca mais do que apenas o sucesso profissional e o dinheiro. Ela quer sucesso e dinheiro, mas não apenas isso. Os jovens executivos querem trabalhar em organizações que signifiquem algo, organizações de que possam se orgulhar, organizações que façam a diferença em suas vidas e em suas comunidades. Uma pesquisa recente da Universidade John Hopkins dos Estados Unidos demonstrou essa mudança de comportamento: 78% dos estudantes entrevistados disseram ter como principal objetivo encontrar um sentido para suas vidas, contra apenas 16% dos estudantes, que declararam ser seu principal objetivo ganhar muito dinheiro. Outro exemplo vem de um executivo inglês, meu amigo. Ele me disse que, na Europa, tornou-se difícil recrutar bons executivos para as empresas de bebidas alcoólicas, cigarros e armamentos. Os melhores simplesmente se recusam a colocar suas habilidades a serviço de produtos ou organizações nas quais não confiam. Isso é novo. Isso é colocar valores em primeiro lugar. E isso acontecerá, cada vez mais, também em nosso meio. Mas, com relação à sua pergunta sobre como fazer a mudança para um ambiente mais espiritualizado, eu cito Tolstoi: "Todos querem mudar o mundo, mas ninguém quer mudar a si mesmo". E cito também Aristóteles: "Nós somos o que repetidamente fazemos. Excelência não é um ato, mas um hábito". Ou seja, temos que assumir nossos papéis nas organizações. As organizações como seres com vontade própria inexistem. Existimos nós, que nelas atuamos. Somos nós os agentes. Então, compete a cada um assumir seu compromisso com o auto-aperfeiçoamento. E esse auto-aperfeiçoamento é uma decisão pessoal que independe dos outros. O mais difícil é isso mesmo: nos observarmos com honestidade e isenção e agirmos para melhorar nosso modo de ser também no ambiente de trabalho.
Em suas palestras, você fala também que confundimos o conceito de sucesso. O que exatamente quer dizer com isso? Penso que nossa incapacidade de ampliar o conceito de sucesso tem-nos feito um mal danado! O sucesso tornou-se nosso maior algoz. Por ele, ficamos ansiosos, angustiados e doentes. Por ele, agimos de forma imoral, cometemos crimes e justificamos as maiores barbaridades. Geralmente, avaliamos se temos ou não sucesso pelo número de bens que possuímos. Ou por quão alto conseguimos subir na escala hierárquica da organização. Se ampliarmos nosso conceito de sucesso para além disso, talvez nos sintamos menos angustiados e tentados a cometer excessos. Seremos bem mais tranqüilos e felizes. Você já parou alguns minutos para pensar no sucesso? O que é sucesso para você? Não seria sucesso ter uma boa relação com o cônjuge ou com os pais ou com os filhos ou com os irmãos? Não seria sucesso ter capacidade de raciocinar sobre sua própria vida e se inebriar com suas próprias conjecturas? Não seria sucesso poder discutir com amigos um livro, um filme ou uma peça de teatro? Não seria sucesso ter a sensibilidade para observar e se encantar com uma flor? Não seria sucesso contribuir para o crescimento dos que convivem com você, inclusive seus subordinados? Todos esses conceitos se misturam com felicidade, mas não seria sucesso a felicidade? E o que é a felicidade? Algo que ocorre espontaneamente ou uma conquista que tem que ser construída e trabalhada? Não desprezo o conforto que o justo ganho financeiro proporciona. Mas alerto para que não fiquemos presos a apenas esse aspecto do chamado sucesso. Quando falo sobre sucesso em minhas palestras, busco provocar uma reflexão. Será que não estamos escravizados por um conceito de sucesso mal-acabado: algo mesquinho, pobre e efêmero. Algo que foi definido de forma unilateral sem a nossa participação. Um conceito incompleto e que talvez não nos sirva. Será que não estamos metidos em uma busca errada, pois não definimos adequadamente o que de fato queremos, o que nos fará mais felizes? A respeito disso, recomendo quatro livros muito interessantes: Desejo de status, de Allain de Botton; Sobre a vida feliz, de Sêneca; Claro como o dia, de Eugene O’Kelly; e Devagar, de Carl Honoré. |