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Contribuições para o aprimoramento da cultura, da ética e da espiritualidade.
 

Liderança Servidora

Líderes para um novo tempo

Que tipo de ser humano ascende hoje nas empresas e organizações? Que valores permeiam sua vida? Que rumo imprime às atividades que coordena? Que influência exerce nas pessoas que lidera? Uma nova visão de liderança ganha corpo atualmente, desafiando o velho paradigma, baseado em indivíduos essencialmente egocêntricos

Resumo de palestra de Danah Zohar, com observações de Gustavo Boog e comentários de Cristina Aiach Weiss

Existem três tipos de capital nas organizações. O material, constituído basicamente por patrimônio e dinheiro, que assegura os recursos e retornos do empreendimento. O social, que proporciona segurança, satisfação e qualidade de vida a todas as pessoas envolvidas no processo. O espiritual, que se concretiza no sentido e propósito dos produtos e serviços oferecidos aos clientes e, globalmente, aos seres humanos.

Se avaliarmos as crises pelas quais estamos passando, constataremos que são, essencialmente, crises de significado, portanto, crises espirituais.

Assim como existem três tipos de capital, há também três tipos de inteligência, mensuradas por seus respectivos quocientes. O Quociente Intelectual (QI), nosso velho conhecido, ligado ao capital material. O Quociente Emocional (QE), que engloba a habilidade de se adaptar a situações diversas e a capacidade de se relacionar e interagir com o meio ambiente e o outro, ligado ao capital social. Sem o QE, não se pode usar bem o QI: Daniel Goleman é hoje o principal disseminador dessa idéia. Por fim, temos o Quociente Espiritual (QS, das iniciais da expressão em inglês, Spiritual Quocient), que responde à nossa necessidade profunda de propósito e sentido na vida, ligado ao capital espiritual. É ele que nos move rumo a valores mais elevados. Quando nos desconectamos de um propósito maior, sentimo-nos inúteis e ficamos até doentes. O QS integra o QE e o QI, constituindo a fundação necessária para o funcionamento eficiente da inteligência como um todo.

Quais são as qualidades da inteligência espiritual? Há, pelo menos, nove características a serem consideradas:

1) Autoconsciência. Quem sou eu? O que quero da vida? Por que faço estas e não aquelas escolhas? Você já se deu um tempo para refletir sobre tais perguntas? Autoconsciência é entender, e entender profundamente, que o self (o grande Eu) é maior que o ego (o pequeno eu). E que, por isso, deve preponderar sobre ele.

2) Motivação por visões e valores maiores. Quais são meus objetivos? Sou capaz de ir além dos interesses pessoais e familiares? Sou capaz de abraçar o ideal de participar da transformação do mundo? Quem se motiva por visões e valores maiores se empenha em mobilizar as pessoas por meio de uma liderança construtiva e solidária. Quem se motiva por visões e valores maiores descobre em si mesmo a vocação de servir.

3) Capacidade de lidar com adversidades. Estou aberto para transformar as dores em aprendizagem? Nos Estados Unidos com muita força, mas também no Brasil, existe uma cultura totalmente pautada no êxito. Uma cultura que reprova as falhas. E, como resposta, quem falha se sente excluído. Há o pressuposto de que tudo pode ser consertado, de que tudo deve ser rápido. As adversidades questionam isso. Qual é o meu real controle sobre aquilo que me acontece? Não será a dor o melhor caminho para o aprendizado?

4) Ser holístico. Percebo a conexão entre fatos, locais, épocas e idéias? Ou tendo a colocar cada coisa em um compartimento estanque? Sou capaz de estabelecer vínculos interpessoais? Ou me fecho em mim mesmo? Ser holístico é interessar-se por tudo, numa era em que a educação ainda se volta para a acumulação de conhecimentos e não para a transdisciplinaridade. É procurar atuar em redes, quando, em muitas organizações, a regra ainda é "faça apenas o seu trabalho!". É buscar transcender o particularismo, que impede o ser humano de ir além.

5) Entender a diversidade. Como me comporto frente às minorias? Estou aberto ao diálogo com os "diferentes"? Cultivo uma atitude de tolerância ou de preconceito? Trabalho pela inclusão ou pela exclusão? Entender a diversidade é reconhecer a humanidade daqueles que têm um histórico pessoal, familiar ou profissional baseado em outros fundamentos. É encarar as diferenças de maneira positiva, pois elas nos fazem relativizar nossas próprias escolhas. Muitas empresas já despertaram para este tema, por perceberem que a diversidade promove a criatividade.

6) Acreditar no que se faz. Sou capaz de defender meu ponto de vista em qualquer situação? No mundo empresarial, tal característica não é comum. Muitos executivos, por medo, não defendem abertamente seus pontos de vistas. Mas, às escondidas, armam situações que os favoreçam, gerando desequilíbrios, semeando intrigas, promovendo conflitos. A autoconfiança dissipa toda essa atmosfera carregada.

7) Perguntar "por que devo fazer isto?". Trata-se de cultivar a insistência de uma criança de 4 anos de idade que pergunta "por quê?". Por que devo fazer assim? Por que não posso fazer diferente? É preciso questionar o sistema, o jeito como as coisas sempre foram feitas. As perguntas abrem perspectivas, ao passo que as respostas fecham. A nova liderança - atrativa e não impositiva - inspira seus seguidores, não impõe teorias. Ela espera daqueles que lidera o questionamento consciente e engrandecedor, não a mera obediência ou adulação. Fazer perguntas inteligentes e saber o porquê é o primeiro passo para a formulação de novas idéias e a promoção das mudanças necessárias.

8) Espontaneidade. Por espontaneidade entendemos a habilidade de falar com o coração, sem preconceitos, a quem se encontra à nossa frente. Ser espontâneo é não ter medo de ser quem se é. E assumir a responsabilidade por isso, não se apresentando como vítima nem colocando nos outros a culpa pelo que acontece. É deixar de lado o paternalismo limitador, que só nos impede de crescer.

9) Compaixão. Chegamos aqui à última, mas não à menor, das nove qualidades. Compaixão não é piedade. Compaixão é empatia. É saber e ousar colocar-se no lugar do outro. É sentir junto, sofrer junto se necessário for, para ajudar o outro a curar sua própria dor.

Quando ponderamos sobre estas nove qualidades, perguntamo-nos: não são elas as competências essenciais que precisamos em nossas organizações? Não são elas que definem o perfil do profissional do futuro, comprometido com a ética, e orientado por valores mais profundos? Não é a falta destes valores que faz com que muitos líderes não disponham hoje de verdadeira liderança?

O papel das empresas e organizações é abrir espaço para que a inteligência espiritual germine. E nutri-la para que cresça e floresça. Agindo assim, possibilitarão o surgimento e o desenvolvimento de seres humanos melhores. E, conectando os três tipos de inteligência e os três tipos de capital, darão contribuições efetivas para a construção de ambientes realmente prósperos e harmoniosos.

Qual é a fórmula para promover a inteligência espiritual? Fazer perguntas. Perguntar sempre. Buscar mais e mais o porquê.

Danah Zohar é física, consultora de empresas e organizações e escritora. Em seu rol de iniciativas, destaca-se a criação de The Oxford Academy of Total Intelligence, um centro educacional voltado para a construção de sociedades sustentáveis, por meio do desenvolvimento profissional e corporativo. É também co-autora de QS - o "Q" que faz a diferença, entre vários livros.

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