Trabalho e Carreira
Na lida diária com aqueles que perderam o emprego e passam invariavelmente pela angústia de dar novo rumo à carreira, observamos que a forma de enfrentar as dificuldades faz toda a diferença para a qualidade da solução e para a duração da procura. A prática tem demonstrado que, no geral, o tempo que as mulheres levam para se recolocar no mercado de trabalho é 1/3 menor do que o demandado por seus colegas do sexo masculino.
Por José Augusto Minarelli
Na maioria das vezes, elas conseguem postos e salários equivalentes ou superiores à última função. Já os homens... É certo que eles ainda são maioria no mundo executivo, mas em termos relativos à porcentagem dos que registram perdas de posição e de vencimentos é consideravelmente maior – isso sem contar o fato do prazo da transição ser mais dilatado.
Não se trata, propriamente, de uma questão de gênero. Talvez o cerne esteja mesmo na postura diante dos acontecimentos e da vida. Ainda que os homens realmente sofram maior pressão da sociedade no tocante a conseguir se reempregar com maior rapidez, é indiscutível que a maneira como as mulheres encaram tanto a demissão como toda a dinâmica que o evento desencadeia possibilita uma travessia mais tranqüila e produtiva, criando condições para um desfecho favorável.
Obviamente, o fato de não serem tão cobradas pela sociedade suaviza o processo, pois permite que a sensação de alívio encontre espaço para vir à tona. Talvez o ponto distinto esteja na disposição que elas apresentam de vivenciar, sem culpa, o prazer do tempo livre, utilizado no cuidado consigo e na atenção a outras áreas da vida, normalmente relegadas a segundo plano.
No universo feminino, o trabalho ocupa função relativa, fato que explica a menor dificuldade que as mulheres encontram em absorver a perda do emprego, o período de transição e todas as mudanças decorrentes da ruptura do vínculo. Os homens, por outro lado, encaram o trabalho como algo primordial na existência. Freqüentemente, a perda do emprego tem efeito devastador, desnorteando o indivíduo. Nesse contexto, o ato de recompor-se adquire contornos de grande complexidade.
Como acumulam funções e têm outros focos de interesse, as mulheres conseguem enxergar o lado positivo da interrupção do trabalho e tratam de aproveitar o tempo de transição para ganhar qualidade de vida, transformando o revés em oportunidade. Esse jeito de enfrentar a situação apresenta um efeito colateral dos mais propícios, pois o cuidar de si repercute positivamente no desempenho das candidatas nos processos seletivos, o que potencializa as chances de conquista de um novo emprego.
Se os argumentos até aqui ainda não convenceram os homens quanto ao aprendizado necessário, o embate se desfaz diante de uma questão crucial: na busca por oportunidades de reinserção no mercado, as mulheres se sentem muito mais à vontade para praticar o networking e, com isso, intensificam as probabilidades de um rápido retorno ao mundo corporativo. Relacionando-se com a rede de modo sincero e natural, sem prevenção ou preconceito, elas expõem com maior clareza o momento que estão vivendo e tornam explícita a sua busca, permitindo que o outro tenha condições de contribuir para a superação do problema.
O networking é um ponto nevrálgico para amplificar possibilidades, pois viabiliza que muitos ouvidos, olhos e bocas estejam atentos a oportunidades capazes de impulsionar nossos projetos pessoais e profissionais. A forma como as executivas em transição de carreira interagem com a rede de relacionamentos – e os bons resultados que colhem ao serem explícitas, naturais e verdadeiras – são um indício e tanto de que, efetivamente, aprender essa lição vale mesmo a pena.
José Augusto Minarelli é presidente da Lens & Minarelli Associados, consultoria de outplacement e aconselhamento de carreira de executivos. Autor dos livros "Empregabilidade – como ter trabalho e remuneração sempre", "Trabalhar por conta própria – uma opção que pode dar certo, “Venda seu peixe – como vender serviços profissionais" e "Networking – como utilizar a rede de relacionamentos na sua vida e na sua carreira".