Trabalho e Carreira
Responda rápido: se neste exato instante um episódio inesperado modificasse drasticamente sua trajetória profissional, você teria uma saída estratégica imediata para fazer frente às suas necessidades de ocupação e renda? A interação com lideranças das maiores e melhores empresas do país e a experiência como consultor de carreira e especialista em outplacement, orientando executivos da alta administração que acabaram de perder seus empregos, me permite afirmar, com absoluta segurança, que para a imensa maioria a resposta sincera à indagação acima é um sonoro não.
Por José Augusto Minarelli
A imprevidência permanece um traço forte em nossa cultura. Em geral, a conscientização quanto à necessidade de reforçar a fechadura da porta somente surge após seu arrombamento. Isso explica o fato de tantos profissionais se sentirem atônitos quando, na esteira da demissão, constatam que não dispõem de um projeto alternativo de carreira. Há aqueles que aproveitam de forma produtiva o período de transição para reorganizar a vida e interiorizar conceitos essenciais para garantir trabalho e renda em um mundo cada vez mais complexo e competitivo. Outros, no entanto, reagem ao susto de forma imediatista, mobilizam-se momentaneamente e, sem visão de longo prazo, deixam de tomar as providências necessárias. O resultado não surpreende: cedo ou tarde, uma nova situação fortuita acaba enredando novamente os incautos, complicando ainda mais as trajetórias pessoal e profissional.
O Plano B não é uma panacéia, uma saída mirabolante ou um passe de mágica tirado da cartola. Antes disso, configura a construção cotidiana de um caminho paralelo, que vai sendo pavimentado como uma rota alternativa. Se por algum motivo surgir algo que bloqueie ou inviabilize a estrada principal, há uma via que possibilita seguir adiante, sem maiores sobressaltos. O mais interessante é que um Plano B consistente influencia positivamente o projeto principal. Quem dispõe de alternativas imprime mais independência, coragem, ousadia e criatividade à sua atuação, ampliando consideravelmente suas chances de sucesso. Mais do que isso: não fica refém das circunstâncias, tornando-se apto a gerir a carreira com independência e assertividade.
A sabedoria popular preconiza que não se deve colocar todos os ovos em uma mesma cesta. Esse raciocínio simples, porém preciso, é útil para refletir quanto à importância do Plano B. Diversificar os interesses, não se restringindo a uma única realidade, amplia não apenas os horizontes, mas também as oportunidades. Um executivo que, paralelamente, desenvolve uma atividade acadêmica, acaba por enriquecer ambas atividades. Em sala de aula, encontra elementos concretos para embasar seu discurso; no ambiente de negócios, certamente descobre inspirações e insights que encontram suas origens nas trocas de experiência com alunos e pares da universidade. Dinâmica semelhante se aplica a outras situações, tais como a do consultor-palestrante, a do hobby que ganha status de negócio ou a do empreendimento familiar que, além de reforçar o orçamento, pode ter a vantagem de representar uma ocupação para o cônjuge ou filho.
Quanto mais cedo o indivíduo delineia seu Plano B, tanto melhor. Trata-se de um fator de previdência, que permite não ficar a pé se o projeto principal sofrer uma pane. Ainda que se perceba uma maior preocupação quanto às mudanças nas relações de trabalho e aos conseqüentes riscos em um cenário de constante mutação, pouco se vê em termos de projetos efetivos para fazer frente a uma eventual mudança de rota. No tocante à parte financeira, já há avanços, pois as pessoas estão mais conscientes da necessidade de contar com uma reserva – ainda que, para alguns, a prática de poupar, gastando menos do que ganha, permaneça um mistério.
Dispor de recursos para atravessar os momentos de turbulência é importante, porém não suficiente. Quem não se ocupa deixa de dar vazão ao potencial realizador, ficando a um passo da depressão. A realidade é especialmente dramática para os profissionais que detinham altos cargos, com elevado nível de poder de decisão. A partir de um determinado estágio da carreira, arrisco mesmo a dizer que aspiramos ter mais utilidade do que propriamente remuneração, sem com isso menosprezar ou minimizar a relevância da parte financeira. Quero apenas salientar a questão crucial que é ter uma ocupação que faça sentido, que traga satisfação. Nesse contexto, o Terceiro Setor tem se mostrado uma opção pródiga, absorvendo profissionais que, após anos de vida executiva ou paralelamente às suas atividades, encontram realização no voluntariado.
Faço aqui um convite: revisite a introdução deste texto e releia atentamente à pergunta inicial. Se você está entre os profissionais que engrossam o coro do sonoro não, seria prudente (e previdente) que desse início à elaboração do Plano B. O primeiro passo é anotar suas idéias e relacionar as diversas possibilidades. No próximo artigo, abordarei as formas práticas de planejar e implementar um plano específico e sob medida, para atender a suas necessidades e aspirações de vida e carreira.
José Augusto Minarelli é presidente da Lens & Minarelli Associados, consultoria de outplacement e aconselhamento de carreira de executivos. Autor dos livros "Empregabilidade – como ter trabalho e remuneração sempre", "Trabalhar por conta própria – uma opção que pode dar certo, “Venda seu peixe – como vender serviços profissionais" e "Networking – como utilizar a rede de relacionamentos na sua vida e na sua carreira".