Trabalho e Carreira
As mudanças nos dão medo. Mas é impossível crescer e se desenvolver sem passar por elas. Para enfrentá-los com êxito, precisamos estar dispostos a abrir mão de velhas maneiras de pensar.
Por Mariá Giuliese
Seu trabalho só lhe traz aborrecimento? Você tem uma sensação de desconforto frente a seu desempenho, chefe ou empresa em que atua? Intui que algo precisa mudar?
Atenção! Você pode estar diante de um processo de transição de vida e carreira.
A transição talvez seja desencadeada por fatores internos: necessidades e desejos pessoais de viver novas experiências ou de se livrar de modos antigos de dirigir a própria vida. Ou resulte de uma reação a fatores externos, que, de alguma forma, geram sofrimento ou impedem sua caminhada em direção ao desenvolvimento.
Em geral, ao examinarmos a questão mais de perto, nos damos conta de que fatores internos e externos se mesclam e formam um quadro por vezes confuso, ameaçador e que demoramos a perceber.
Afinal, reconhecer a necessidade de mudanças – embora elas sejam inevitáveis e possam ocorrer a qualquer momento – é difícil, exige muito trabalho e dá medo. A começar pelo fato de que as mudanças sempre envolvem superação de modos antigos de pensar e agir e separação de pessoas e lugares queridos. Exigem esforço para perceber e compreender o que ocorre e flexibilidade e capacidade de adaptação para aceitar as perdas e reconhecer os ganhos.
Toda transição – seja de vida ou carreira – se desenvolve geralmente em três tempos. O primeiro caracteriza-se pela dúvida e por sensações de desconforto. Percebemos que algo está terminando e demanda mudanças. Na verdade, a transição começa com o fim de uma ilusão: um sonho, um relacionamento, um projeto. No segundo tempo, nos damos conta de que precisamos encerrar o ciclo com cuidado e respeito por nossos sentimentos e pelos sentimentos dos outros. E, em seguida, nos defrontarmos com a angústia de não saber o que fazer e para onde ir. Algo terminou e nada foi colocado em seu lugar. Estamos no escuro, experimentamos um sentimento de vazio e achamos que temos que fazer algo depressa. Temos medo do desconhecido, queremos ultrapassá-lo rapidamente, mas precisamos de tempo para descobrir onde estamos e para onde vamos. Este é um tempo difícil e envolve a revisão das crenças e valores que construímos e que comandam nossas vidas. O terceiro tempo é marcado pela estruturação de um novo começo: uma nova atividade, um novo vínculo, um novo projeto. É hora de realizar.
Ao longo do processo de transição, nos defrontamos com nossas verdades: os paradigmas que erigimos para orientar nossas ações. E com a necessidade de revê-los ou quebrá-los. São cinco os paradigmas mais freqüentemente encontrados nestes processos:
- O primeiro deles é o de que "os problemas que enfrentamos são sempre causados pelos outros". Se trocarmos de chefe, emprego, parceiro ou lugar, tudo estará resolvido. Na verdade, é preciso reconhecer que temos participação em nossos problemas. E só reconhecendo isso poderemos circunscrevê-los e atuar sobre eles. Quando a responsabilidade é minha, a solução também está em minhas mãos e torna-se mais fácil de concretizar.
- Outro paradigma a ser quebrado neste momento é o de que temos que resolver nossos problemas sozinhos. Buscar ajuda especializada pode encurtar os caminhos e trazer luz sobre o que está acontecendo. Mas, a ajuda precisa ser realmente especializada. Temos que parar de achar que "os amigos são os melhores conselheiros". Em geral, os amigos têm boa vontade e querem ajudar, mas não têm os conhecimentos e a neutralidade necessários para isso. O leigo no assunto de transição de vida e carreira tende a ser prescritivo, ou seja, prescreve o que acredita que você deve fazer, que decisões deve tomar. Neste caso, é indispensável que você saiba que as decisões a tomar deverão ser conseqüências de uma reflexão sua. O outro pode ajudar a construir o caminho e acompanhar o seu caminhar, mais não pode, nem deve decidir o caminho a ser seguido por você.
- Há, ainda, a crença de que "não podemos perder tempo". Este paradigma nos leva à ação sem reflexão, a executar sem pensar. É importante considerarmos que o tempo mental é diferente do tempo cronológico. Cada um de nós tem uma forma e um tempo para perceber o que está acontecendo e o que deve ser feito a respeito. Dar a nós mesmos o tempo que necessitamos para viver a transição e realizar as mudanças que ela exige é fundamental.
- Neste período, outra questão se apresenta: a financeira. Costumamos acreditar que "estamos gastando nossas reservas". E ficamos muito aflitos com a expectativa de resolvermos depressa e com pouco custo financeiro a nossa transição. É preciso olhar a situação por outro vértice: o do investimento. Se você fez reservas foi para ter quando precisasse e este é o momento. Você está investindo em seu futuro e, se o fizer com responsabilidade e generosidade, poderá colher os frutos. Quando investimos afeto, energia e dinheiro em algo é sinal de que temos estas riquezas e, quanto mais investirmos, mais teremos. É pouco provável que fiquemos pobres ao investirmos em nosso crescimento.
- Finalmente, a meu ver, o paradigma que mais compromete o período de transição é o de que "não podemos deixar a peteca cair", "não podemos nos deprimir". Será que não? Será que temos que disfarçar nossas dores, tristezas e decepções para nós mesmos? E, se o fizermos, como poderemos tratá-las? Deprimir-se durante os processos de transição é parte inerente da consciência de que temos que mudar, de que algo não vai bem, de que estamos nos prejudicando e sofrendo. É ao nos deprimirmos que nos dispomos a rever os velhos modos de ser e mudar o que for preciso. Caso contrário, por que mudar?
"Virar a página" prematuramente, sem viver o luto pelas perdas ocorridas, e dar início ao novo começar, sem passar pela dor de perceber nossas limitações e desamparo, é construir o caminho para repetirmos os mesmos erros e voltarmos a sofrer pelas mesmas coisas.
Mariá Giuliese é psicóloga especializada em psicanálise e psicologia organizacional pela PUC, SP. È diretora executiva da Lens & Minarelli, especialista em análise e aconselhamento de carreira para executivos, autora do livro "Desenhando o futuro Transições de Vida e Carreira"