Autoconhecimento e Sentido
Não conseguimos controlar o curso das coisas da forma como gostaríamos, mas podemos, sim, mudar a maneira como recebemos o que nos acontece. E fazer das perdas e revezes uma oportunidade para ampliar nossa percepção e atuação no mundo nos reinventando no cotidiano exigente da vida.
Por Elza Tamas
Primo Levi nos deixou um dos mais sensíveis e tocantes legados sobre o que foi a experiência nos campos de concentração. Em seus livros, ele atribui sua resistência frente ao desafio diário da sobrevivência nos campos à sabedoria de "não procurar entender". Como recurso, cunhou na vasilha em que recebia seu parco suprimento de comida o lembrete: "Não se perguntar "por que?".
Quando vivemos situações inesperadas, ou até mesmo previsíveis, mas indesejadas, como uma doença, a perda do emprego, uma separação, a morte de um ente querido, nos sentimos sem chão. Tudo fica nebuloso, nos encolhemos, já não sabemos que direção seguir. Somos tomados por um turbilhão de emoções, que passam pelo medo, a raiva, a autodepreciação, ou sua contrapartida, a acusação do outro, do colega, do chefe, da vida, pois alguém ou algo tem que ser responsabilizado pela dor e pelo descontrole que sentimos. Por que isto? Por que agora? Por que eu?
Sofremos duplamente: primeiro, pelo que perdemos; depois, pelo angustiante reconhecimento de que fracassamos em nossa tentativa de controlar a vida! Simplesmente, somos incapazes de impedir que coisas que não desejamos nos aconteçam. Em muitos casos, nos desesperamos, negociamos, fazemos promessas, e começamos a nossa ingênua contabilidade de renúncias. Tentamos driblar a vida oferecendo sacrifícios que nos parecem muito honrosos e caros. E esperamos assim, neste toma lá, da cá, recuperar a nossa estabilidade perdida.
Claro que um autoquestionamento e uma reflexão crítica são absolutamente pertinentes e obrigatórios em situações de crise e reavaliação. É assim que crescemos e nos aprimoramos. O livre interrogar é a base de nossa liberdade, e o ato de se perguntar sempre nos traz a riqueza da incursão pelo território desconhecido. Porém, alimentar um "por que?" indignado – que só nos remete a um senso de especialidade, no qual achamos, em nossa onipotência infantil, que estas coisas não podem acontecer a pessoas como nós – apenas expõe a nossa presunção e o nosso débil entendimento da vida e das formas por meio das quais ela se manifesta. É uma indagação ilegítima porque não nos contempla com o novo. Apenas repete o mesmo discurso cansado, defendido, cheio de respostas que já conhecemos.
A vida é um constante fazer e desfazer. Pulsa e é dinâmica. Não aceita chantagens e manifesta-se em múltiplas perspectivas. Dentro da materialidade, tudo que começa um dia acaba. Nada escapa a este postulado. Porém, mesmo sabendo disto intelectualmente, resistimos a aceitar as imposições da finitude. É neste pacote que estamos. Todos nós.
Podemos tecer inúmeras teorias intelectuais e até recheá-las com argumentos pseudo-espiritualizados, na tentativa de encontrar uma justificativa para os acontecimentos que nos desagradam. Sentimos, assim, que, ao entendermos o que nos aconteceu, mesmo dentro dessa lógica apertada, retomamos o controle da vida em nossas mãos. Criamos a ilusão da realidade que nos interessa, ou melhor, a perspectiva que interessa ao nosso eu controlador. Com a ordem temporariamente restaurada, surge uma sensação de calma. Mas, por ser resultante desta mecânica simplista e parcial, essa paz aparente vai naufragar ali na esquina, quando um novo episódio nos surpreender e não couber novamente nas nossas explicações.
Não conseguimos controlar o curso das coisas da forma como gostaríamos, mas podemos, sim, mudar a forma como recebemos o que nos acontece. Transformar o "por que?" em "por que não?" nos tira da condição de vítimas e aciona os nossos recursos mais preciosos. Não procurar entender, não se perguntar "por que?" exige um grande esforço de humildade e aceitação. Não é a resignação passiva dos fracos. É um trabalho interno intenso, feito apenas por aqueles que agüentam as perguntas sem buscar respostas fáceis e limitadas.
Então, quando a vida fizer novamente aquela curva que não esperávamos e nos colocar de cara com uma paisagem que parece hostil, mas talvez apenas porque não a conhecemos, procuremos agir dentro do nosso melhor: façamos do "por que não?" uma oportunidade para ousar novas fronteiras internas e ampliar a nossa forma de atuação no mundo.
Elza Tamas(etamas@uol.com.br) é psicóloga com especialização em Psicossintese, reconhecida pelo Psychosynthesis & Education Trust de Londres. Atua na área clínica há mais de 25 anos e é consultora de empresas na área de desenvolvimento humano. Interessada em entender a "natureza da mente", estudou inúmeros sistemas de auto-conhecimento em centros nos Brasil, EUA, Índia, Nepal e Dinamarca.