Trabalho e Carreira
Uma nova perspectiva começa a ganhar forma nas empresas e organizações. Estamos transitando da competição para a cooperação, da ultra-especialização para a visão sistêmica, do materialismo para o espiritualismo. Como isso impacta a vida e a atividade dos colaboradores?
Por Ana Cristina Stabelito
Antigamente, falava-se em salário decorrente do mercado e do desempenho. Hoje, fala-se em remuneração variável baseada no resultado do negócio. Enfocava-se a obediência, enquanto, atualmente, o que conta é a lealdade. O egoísmo exacerbado cedeu lugar ao altruísmo; o materialismo, ao espiritualismo; a imposição, à atração; e a experiência profissional, à inteligência emocional e espiritual. O que aconteceu? Uma inversão total de valores?
Apenas deixou-se de valorizar apenas a individualidade para se dar ênfase à equipe, e o sucesso profissional não é mais sinônimo da especialização somada ao domínio da tecnologia, de outros idiomas (um só já não basta, segundo os especialistas em Recursos Humanos) e da informação. Esta, por sinal, não pode nem deve ser encarada como fonte de poder. Tem que ser compartilhada, estar disponível a todos.
Por isso, um mestrado ou um MBA (no Brasil ou no exterior), cursos de informática e de línguas ainda são requisitos indispensáveis para quem quer se candidatar ao sucesso profissional. Porém esta opção exige mais do que habilitação adequada. O candidato precisa, além de um currículo invejável, estar apto a contribuir efetivamente para o bem do próximo; atuar como voluntário em ONGs, associações ou entidades beneficentes; ser uma pessoa flexível (não há nada mais fora de moda do que se prender rigidamente aos próprios pontos de vista) e ter ampla capacidade de trabalhar bem em equipe e sob pressão (é verdade: o estresse é um dos males da vida moderna e quem souber mantê-lo sob controle já está a meio caminho da boa saúde e do sucesso profissional).
Relacionar-se adequadamente com colegas de trabalho, superiores, subordinados, clientes e fornecedores é um diferencial de peso. Hoje, o mercado está buscando muito mais pessoas com atitudes corretas do que com experiências corretas. Nas entrevistas, eu não me preocupo só com a experiência profissional do indivíduo. Quero saber quem ele é, quais são os seus valores, no que ele acredita, como se comporta sob pressão. É isso que está fazendo a diferença: o ser humano e sua alma, não o currículo, afirma Cristyna Aiach Weiss, pós-graduada em Recursos Humanos nos Estados Unidos.
Ela vai além: Uma característica que já está sendo muito valorizada e no futuro será ainda mais é a espiritualidade e a capacidade de empatia. É preciso que o profissional saiba se colocar no lugar do outro e procure entendê-lo, seja esse outro seu colega, seu líder, seu liderado, seu cliente ou seu fornecedor. Antigamente, eram mais prestigiadas as pessoas impositivas, que possuíam fortes noções de hierarquia de chefia e subordinação. Isso agora está mudando. O profissional tem que aprender a exercer, mais do que nunca, seu poder de atração.
Estabilidade ou Incerteza?
Qualquer profissional, ao comparar minuciosamente o presente com o passado, vai perceber que a antiga estabilidade cedeu lugar à incerteza. Isso é ruim? Não necessariamente. A antiga estabilidade tinha muito a ver com acomodação. E isso, sim, era péssimo. Afinal, que certeza o ser humano possui na vida? Ao deitarmos, nem sequer sabemos se iremos acordar na manhã seguinte. É cada vez mais freqüente o caso de jovens acometidos por doenças que, acreditávamos, só atingiriam pessoas de idade avançada, como enfartos, paradas cárdio-respiratórias e acidentes vasculares cerebrais.
Ninguém pode se acomodar, achar que já evoluiu o suficiente para ser bem-sucedido.O sucesso se constrói dia após dia. É preciso estudar sempre, buscar aprender algo novo a cada dia, todos os dias da semana. Manter a jovialidade por meio de uma curiosidade explícita e sempre renovada. O filósofo Mokiti Okada enfatiza que os homens precisam crescer constantemente, acompanhar a evolução dos tempos e estar sempre ancorados no presente. O homem deve progredir e elevar-se continuamente. Observemos a Natureza. Ela procura se renovar e progredir constantemente, sem um minuto de interrupção. O número de seres humanos aumenta ano após ano. As terras vão sendo exploradas. Vemos maiores e melhores vias de transportes obras cuja construção demonstra crescente arrojo arquitetônico e maquinários cada vez mais perfeitos. As ervas e as árvores crescem em direção ao Céu. Tudo isso mostra que nada regride. Ora, se tudo continua evoluindo, é natural que os homens também devam evoluir continuamente, seguindo o exemplo da Natureza.
Mas, progredir apenas materialmente nos negócios, na profissão, na posição social não passa de algo superficial, como uma planta sem raiz. É indispensável o progresso do espírito. Devemos avançar passo a passo, pacientemente, nesse sentido. Com a elevação gradual do espírito, a personalidade também floresce. E essa atitude de contínuo progresso despertará a confiança dos outros, facilitará nossos empreendimentos e nos tornará mais felizes. Aprender sempre é fundamental, mas, na era do ser, a inteligência espiritual, aquela que depende menos do aprendizado do que da intuição e do discernimento, será cada vez mais requisitada aos que pretendem alcançar e se manter na posição de líderes.
Uma primeira versão deste artigo foi publicada no site: http://www.johvem.com.br. Ela foi editada para ser reproduzida aqui, em thenewlife.
Ana Cristina Stabelito é jornalista convidada do thenewlife.