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Ciência e Compaixão

Espiritualidade faz bem para a saúde?

A evolução do conhecimento na medicina tem passado também pelo estudo da espiritualidade e seu impacto na recuperação de pacientes e na saúde. O tema surge com freqüência em congressos científicos e tem sido alvo de estudos clínicos realizados por instituições competentes e respeitadas, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.

Um dos pioneiros nesse campo foi o psiquiatra e geriatra norte-americano Dr. Harold Koenig, que há quase dez anos criou um departamento voltado a pesquisas sobre espiritualidade na Duke University (EUA). Ali ele coordena diversos trabalhos, publicados em revistas especializadas, que relacionam, com resultados bastante positivos, a prática religiosa com longevidade, redução da depressão e da hipertensão, benefícios na recuperação em quadros pós-operatórios e imunidade.
O site http://www.dukespiritualityandhealth.org/ traz informações interessantes sobre o assunto.

Hoje, há duas principais correntes de pesquisas em andamento. Uma que desenvolve o ferramental para a avaliação da espiritualidade, como deve ser aplicada, como ela pode ser definida e mensurada. Outra que está preocupada em avaliar em que medida o exercício dessa prática pode ser benéfico à saúde. Uma rápida busca na base de dados PubMed, do National Institute of Health, dos Estados Unidos, retorna nada menos do que 1,8 mil trabalhos científicos para a palavra-chave "spirituality" e quase 30 mil documentos para "prayer".

"O interesse da comunidade médica se dá exatamente porque os estudos clínicos têm demonstrado que a espiritualidade tem, sim, um papel importante na boa evolução da saúde e dos tratamentos", afirma o Dr. Fábio Nasri, geriatra do HIAE. Influenciado por essa corrente, ele passou a perguntar aos pacientes, no consultório, se têm religião. "A repercussão dessa simples pergunta é fantástica. Ela abre espaço para o diálogo sobre outros temas. As pessoas se sentem mais à vontade para falar sobre seus medos e ajudar o médico nas decisões sobre o tratamento", relata.

É claro que há celeuma em torno do assunto e outras linhas de interpretação. Há quem diga, por exemplo, que a melhoria na qualidade de vida de tais pacientes decorre da sociabilização que a atividade religiosa permite. A fé excessiva é outro alvo de críticas, em razão do risco de não aderência do paciente ao tratamento. Mas o que está em foco na medicina é o tipo de envolvimento religioso ou espiritual que o indivíduo possui e como ele se relaciona com sua fé.

"Pacientes querem ser tratados como pessoas e não como doentes. Querem ser observados como um todo, incluindo os aspectos físico, emocional, social e espiritual. Ignorar qualquer uma dessas dimensões torna a abordagem do paciente incompleta", afirma o neurologista Dr. Mário Peres, pesquisador do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.

"Em hipótese alguma a prática espiritual substitui a médica. Mas ela é isenta de custos e tem-se comprovado que seus benefícios incluem menos gastos hospitalares, com medicamentos e exames", diz o Dr. Mário Peres. A questão ganhou tal importância que, nos Estados Unidos, o American College of Physicians publicou um consenso sobre como essa abordagem deve ser feita pelo médico. O documento é composto de quatro perguntas que norteiam a entrevista médica no assunto: 1) Você tem crenças individuais religiosas que lhe ajudaram no passado a enfrentar dificuldades?, 2) Qual a importância dessas crenças para você e como elas influenciam a forma como você cuida de si mesmo?, 3) Você está envolvido em alguma comunidade espiritual ou religiosa?, 4) Como você gostaria que o seu médico abordasse os assuntos espirituais? Mais informações podem ser obtidas no site: acponline.org.

TEMA É FOCO DE ESTUDOS NA USP

No Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP foi criado, há cinco anos, o Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos (Neper), um grupo interdisciplinar que reúne médicos, psicólogos, antropólogos, historiadores e outros pesquisadores que têm interesse no estudo científico da espiritualidade, não vinculado a qualquer religião. O grupo tem produzido artigos e teses acerca do assunto, boa parte dos quais está disponível no site: hojenet.org, no link teses e artigos.

De acordo com o psiquiatra do HIAE Dr. Alexander Moreira de Almeida, fundador e coordenador do Neper, os estudos nessa área vêm demonstrando uma associação entre maior envolvimento religioso e melhores indicadores de bem-estar e saúde física e mental. "De maneira geral, essa situação não está relacionada a nenhuma denominação específica, e, sim, com a forma como o indivíduo se envolve com a sua religião", afirma ele.

Artigo publicado na edição 5 março/abril 2005 da Revista Médico Einstein, publicação do Hospital Israelita Albert Einstein

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