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Autoconhecimento e Sentido

Instinto de vida

Deveríamos deixar de fazer aquilo que criticamos no outro, deixar de esperar que a solução caia do céu, começar a falar menos, a agir e existir mais.

Por Neiva Souza Carmo

Uma amiga, assídua leitora de psicanálise, compartilhou comigo um assunto vibrante. Entre outros temas, disse-me ela, Freud, o fundador dessa disciplina, abordou o que chamava de instinto ou pulsão de vida e instinto ou pulsão de morte, ambos atuantes em cada indivíduo, em variados graus. Explicada superficialmente, a pulsão de vida empurraria todos os nossos movimentos rumo a atividades positivas, como entrar em contato com outras pessoas, realizar trabalhos criativos, produzir conhecimentos, usufruir nas oportunidades de lazer etc. Gerar, expandir, alegrar-se: tais são os verbos que melhor a expressariam. A pulsão de morte, ao contrário, se manifestaria quando nos fechamos totalmente a contatos sociais, a novas formas de trabalhar, ao aprendizado - enfim, ao próprio ato de viver.  A conclusão seria: à medida que as pulsões de vida se sobrepuserem às pulsões de morte, viveremos bem e aceitaremos nossa responsabilidade em gerar melhoras gerais no mundo e nas pessoas a nossa volta.

Mais que nunca as pessoas buscam a vida com toda a intensidade. Talvez para não sucumbirem às inúmeras pulsões de morte que tem nos rodeado. Afinal, quem não se cansou das guerras e das intolerancias (religiosas, raciais e outras), da falta de ética, dos políticos corruptos, do jeitinho brasileiro, da violência urbana, da condição miserável de tantos brasileiros, da deterioração das relações de trabalho, das atitudes desconfiadas e competitivas, do consumismo vazio, do quase gozo brasileiro com os fracassos, das torturantes culpas religiosas não nos permitindo estar felizes mesmo que façamos muito (porque somente teremos autorização para nos sentirmos bem quando formos aprovados no céu, depois de nossa morte).

Existe uma forma de sair desse círculo de morte? Claro que sim. As muitas evoluções humanas estão aí para mostrar isto. Antes de mais nada, temos que evitar agir em manada, e ter muita quietude para deixar de fazer aquilo que criticamos no outro, deixar de esperar que a solução caia do céu, começar a falar menos, a agir e existir mais. Menciono aqui algumas possibilidades:

  • construir relações familiares e sociais mais humanas e agradáveis;
  • agir com integridade, pautando-se por valores éticos e buscando estabelecer novas relações de trabalho e criação;
  • exaltar o que há de positivo nos colegas, amigos e familiares;
  • reconhecer que a competência e o conhecimento é que fazem a diferença;
  • votar, fiscalizar e influenciar o voto em políticos sérios e competentes;
  • aceitar a nossa responsabilidade individual em mudar;
  • buscar formas de reduzir a violência e a desigualdade social;
  • criar novas frentes de trabalho e empreendimentos;
  • ajudar os outros a viabilizar suas idéias.

Quando realizamos qualquer uma dessas possibilidades, sentimos uma forte pulsão de vida, um entusiasmo que nos dá enorme alegria de viver.

Neiva Souza Carmo é formada em Administração de Empresas e é uma executiva do mercado financeiro.

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