Trabalho e Carreira
O emprego decrescente é freqüentemente visto como séria ameaça, tanto a nível pessoal quanto a nível social - algo que devemos combater a todo custo. Mas, se você pensar bem, isso não faz sentido.
Desde a aurora da civilização, a humanidade vem lutando para trabalhar menos, não para trabalhar mais. Com essa finalidade, inventamos uma infinidade de equipamentos para economizar mão-de-obra: arados, moinhos de vento, rodas d'água, bombas, teares, ordenhas mecânicas, colheitadoras, cortadores de grama, elevadores, máquinas de lavar, processadores de alimentos, fornos de micro-ondas, brocas elétricas, aspiradores de pó, abridores de latas elétricos, apontadores de lápis elétricos, lavadoras automáticas de automóveis e carts de golfe motorizados, só para mencionar alguns. A intenção subjacente a quase todo o desenvolvimento tecnológico, desde o primeiro machado de pedra até o caixa automático no banco, foi reduzir o tempo e a energia que dispendemos no trabalho físico. E agora, quando estamos finalmente vendo os frutos da nossa economia de mão-de-obra, agarramo-nos com ferocidade justamente àquilo que tentamos durante tanto tempo deixar pata trás.
Por um lado, amamos o trabalho por aquilo que ele traz: segurança, auto-estima, conforto, contato humano, desafio. Por outro lado, ressentimo-nos daquilo que ele exige de nós: o tempo que precisamos gastar nele, a energia e liberdade que nos rouba. Quantas pessoas, se ganhassem na loteria o dinheiro que hoje recebem com seu trabalho, continuariam a gastar seu tempo num escritório, num caminhão, numa loja, numa tipografia ou numa mina de carvão? A maioria quer aquilo que o trabalho dá, não o trabalho em si.
Tememos o desemprego, não por temer a perda da trabalho em si, mas por temer a insegurança, a incerteza, a perda de auto-estima, o desconforto material e, em alguns casos, a fome - todas as coisas que o trabalho nos ajudou a evitar. Além disso, já que nossos sistemas econômicos são baseados no dispêndio de mão-de-obra humana (o tempo humano é o principal componente na formação dos preços, sendo os recursos naturais, em essência, grátis), o desemprego em grande escala pode ter como conseqüência o desastre para o bem-estar econômico de um país.
A pergunta que deveríamos estar fazendo é não como manter o nível de emprego, mas como criar um sistema econômico que possa distribuir recursos e ampliar nosso bem-estar sem violar o planeta - satisfazendo, ao mesmo tempo, nosso desejo imemorial de nos livrarmos da labuta indesejada.
Enquanto estivermos presos na armadilha de acreditar que a paz interior vem através daquilo que temos ou fazemos, nossa mente encontrará coisas com que se perocupar. Nesse aspecto, ainda estamos longe der ser livres.
- LIVRO RELACIONADO:
Russell, Peter - Um Buraco Branco no Tempo
Nossa Evolução Futura e o Significado do Agora,
Pag.131 e 132, São Paulo, Editora Aquariana,
e-mail: aquariana@ground.com.br, 1992
Autorizado pela Editora Aquariana