Trabalho e Carreira
Precisamos aprender a abrir mão de uma forma, para que outra, mais avançada, possa surgir.
Cristina Aiach Weiss
Pensar em mudança é pensar em um imenso universo em movimento, no qual a única realidade permanente é a própria impermanência. Quem não conhece a famosa afirmação atribuída ao filósofo Heráclito de Éfeso, de que jamais entramos duas vezes no mesmo rio? O apego a formas transitórias é uma incessante fonte de sofrimento. O princípio da felicidade e da sabedoria é aceitar a mudança e ajustar a vida a seu ritmo. É evidente que não nos referimos aqui a quaisquer transformações. Porém àquelas que, por mais amedrontadora que seja sua aparência, possuem um caráter essencialmente benigno, pois participam de um processo evolutivo.
Nessa perspectiva, mudança é renúncia: abrir mão de uma forma para que outra possa surgir. Engajar-se na mudança é, de certa forma, atrever-se a puxar o próprio tapete e a virar a própria mesa, em busca de patamares mais elevados de auto-realização. Por isso, em seu livro Deep Change (Mudança Profunda), o escritor e consultor norte-americano Robert Quinn evoca a "jornada do herói", que faz parte de tantos mitos e compõe o enredo de tantas produções culturais. A "jornada do herói" é, essencialmente, a história de uma transformação individual. Ao iniciá-la, o herói deixa o terreno da certeza e entra no mundo do desconhecido. Para solucionar os problemas que se apresentam, precisa romper com velhos hábitos e estruturas mentais e abraçar um novo paradigma. O prêmio por seus esforços é a conquista de uma nova identidade, caracterizado por um estágio superior de consciência.
Mas, embora a "jornada do herói" seja, em essência, a metáfora de toda a existência humana, são poucos os que estão dispostos a aceitar voluntariamente o papel de herói. Os heróis são valorizados exatamente porque são raros. A grande maioria prefere arrastar uma existência mortalmente tediosa e previsível a arriscar-se em uma transformação que a fará inevitavelmente evoluir. Isso tem um nome: medo. É o medo do desconhecido - isto é, o medo de nosso próprio potencial - que nos torna terrivelmente conservadores. Preferimos as rotinas, a ilusão de viver um dia igual ao outro.
Ocorre que não existe um ponto fixo no universo. Podemos ter nos esquecido disso, mas, desde sempre, tivemos que mudar. Fomos obrigados a abandonar o conforto do útero materno quando ele se tornou pequeno demais para nos conter. Fomos obrigados a levantar do chão e desafiar a força da gravidade para poder andar. Fomos obrigados a enfrentar fisionomias e ambientes estranhos quando ingressamos na escola ou no mercado de trabalho. Em cada caso, a aceitação do desafio nos ajudou a crescer, nos empurrou um degrau acima na escada da vida. Somos especialistas em mudança e, no entanto, temos medo de mudar. De certa forma, comportamo-nos como aqueles atores veteranos que, apesar de toda a tarimba, sempre sentem um tremor nas pernas antes de entrar em cena. Por não terem outra escolha, acabam entrando. E, um minuto depois, superado o medo, não querem mais abandonar o palco.
Por bem ou por mal, temos que mudar. A mudança é a regra áurea do jogo da vida. Quando nos recusamos a jogar conforme as regras, o universo parece conspirar para recolocar-nos no trilho. Há inúmeras histórias de pessoas aparentemente realizadas, com famílias, amigos e empregos extraordinários, condição econômica confortável e sucesso em todos os empreendimentos, pessoas que são um modelo para alguns e até um motivo de inveja para outros, e que, em um dado momento, como que atingidas por um raio caído do céu azul, sofrem os efeitos de uma derrocada financeira, de uma grave doença ou da perda de um ente querido e são obrigadas a dar um rumo completamente diferente a suas vidas. Essas pessoas parecem ter sido vitimadas por um grande infortúnio. Porém, apesar do sofrimento muito real que venham a experimentar, se adotarmos uma perspectiva evolucionista, deveremos admitir que estão tendo a preciosa oportunidade de experimentar algo novo, de iniciar uma nova etapa em seu processo evolutivo. E, de fato, não são poucos os que se erguem dessas quedas engrandecidos.
Estruturas são criadas; preservadas durante certo tempo; e chega o momento em que precisam ser desmanchadas para que estruturas superiores possam emergir. Criação, preservação, transformação: o ciclo parece infindável! A vida dos mamíferos seria um inferno se os grandes répteis não tivessem desaparecido da face da Terra. Acaso ou Providência, cada qual procure sua explicação. Qualquer que seja ela, a mudança será sempre um componente fundamental. Plantamos a infelicidade quando não reconhecemos o momento de deixar ir: uma idéia, um bem material, uma posição, a própria imagem que fazemos de nós mesmos. Às vezes realizamos grandes feitos e ficamos tão encantados com nossa performance que tendemos ao imobilismo. Existe um tempo de saborear a conquista, um tempo de assimilar o seu significado profundo e um tempo de deixá-la ir. Não podemos congelar o sucesso. Tampouco devemos apegar-nos ao fracasso. A fonte de energia, da qual tudo emana, jorra incessantemente. O fluxo passa por nós, mas de fato não nos pertence. Não incorramos na ilusão de interrompê-lo.
Cristina Aiach Weiss é Administradora de Empresas e executiva na área de Recursos Humanos há mais 15 anos.
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