Fora do Casulo
O trinômio "conhecimento, ética e espiritualidade" já está sendo introduzido em empresas de vanguarda. E os resultados começam a aparecer: ambientes de trabalho mais harmoniosos, maior criatividade e muito dinamismo nas tomadas de decisão.
Por Juliana Tavares
Durante seis dias, gerentes e coordenadores da Visanet encontraram-se numa situação, no mínimo, inusitada. O que parecia ser mais um daqueles treinamentos enfadonhos, nos quais os participantes se limitam a ouvir exposições sobre finanças, marketing e estratégias de gestão, tornou-se um programa de capacitação provocador, suscitando pensamentos, sentimentos e sensações que iam muito além do cotidiano empresarial.
"Além do conhecimento técnico, pretendemos levar para nossos executivos debates sobre filosofia, estética, ética e inovação, sem explicar como estas questões se relacionam com o nosso dia-a-dia", diz a coordenadora da área de treinamento da Visanet, Alessandra Isola. "Foi uma grata surpresa constatar que, ao voltarem do curso, as pessoas passaram, por exemplo, a enxergar o belo no ambiente de trabalho e em sua vida pessoal, sem que, para isso, tivéssemos ensinado uma fórmula pronta. Os resultados foram tão positivos que é nossa intenção adaptar o treinamento para os diretores".
Na PrincewaterhouseCoopers, ocorreu experiência semelhante. Um seminário sobre tributação brasileira e internacional, entre seus palestrantes, um filósofo e um monge budista. De acordo com Nélio Weiss, sócio da área de tributação da empresa, o objetivo dessas presenças em um evento tão especializado foi o de abrir a mente dos participantes. "Diferentemente das palestras de auto-ajuda, os temas apresentados não tiveram nenhuma conexão com o seminário, pois tratavam do mutável e do imutável na vida", afirma. "A nossa proposta foi fazer com que os executivos tomassem conhecimento de outras esferas do pensamento. Afinal, nos dias de hoje, é fundamental que, além de dos temas de sua área de especialidade, o profissional saiba discorrer sobre assuntos diversos".
Ainda são poucas as empresas que incorporaram estas práticas em seu cotidiano. Mas a inclusão de disciplinas como a filosofia nos treinamentos é uma discussão entre os estudiosos há pelo menos 17 anos. Um artigo escrito em 1990 por Thomas Hurks, professor de filosofia da Universidade de Calgary, no Canadá, afirmava que, embora as habilidades técnicas fossem muito importantes em funções gerenciais de nível baixo, elas se tornavam menos relevantes nas atividades de nível médio e superior. Para ele, nos altos cargos, o executivo passa a ser avaliado por sua habilidade em raciocinar, propor respostas originais para os problemas e se comunicar. Henry Mintzberg, professor da Faculty of Management da McGill University, também do Canadá, e guru na área de gestão, sustenta que uma educação abrangente, baseada em idéias, pode ser mais útil às empresas e à sociedade do que uma educação técnica limitada. Na opinião dele, "não basta ter domínio de técnicas e métodos de pesquisa, é preciso ter erudição, independência e criatividade".
Por isso, o estudo de Platão, Descartes, Kant e todos os demais filósofos e pensadores é essencial para o desenvolvimento de uma gestão de resultados. Ainda que seus frutos não sejam imediatos. No caso da Visanet, por exemplo, o curso foi desenvolvido para a média gerência com o apoio da Fundação Dom Cabral (FDC). "Não havia apresentação em power point, nem leitura de textos, apenas discussão de idéias e visitas monitoradas a museus de Ouro Preto. As aulas eram verdadeiros estimulantes do pensamento, que procuravam fazer com que os estudantes descobrissem novas maneiras de enxergar o mundo", afirma a gerente de projetos da FDC Maria Lúcia Goulart Dourado.
A proposta, segundo ela, já é uma realidade em alguns países e faz parte da estratégia conhecida como "Blue Ocean", um conceito criado pelos professores de gestão W. Chan Kim e Renée Mauborgne, que afirmam já não existir espaço para empresas que apostam na concorrência acirrada, batizada como "Red Ocean". Pela "Blue Ocean", o caminho para o sucesso exige das empresas uma atenção especial às demandas do consumidor – o que requer agilidade para se pensar em novos produtos e serviços. "É aí que a criatividade e a inovação, estimuladas pelo estudo da filosofia, da estética e de outras disciplinas, são fundamentais para as corporações", diz Maria Lúcia. "O executivo do futuro precisa sair do casulo tecnicista. Além disso, a reflexão, inspirada pelo estudo dos filósofos, leva ao autoconhecimento".
Juliana Tavares (juliana@thenewlife.com.br) é repórter colaboradora deste portal.