Um ato de coragem
Ensinava o grande Albert Schweitzer, que herói não é o homem da ação. Herói é o homem da renúncia. Portanto, grandes não foram Napoleão, Hitler, Stalin, Bismark. Grande foi Jesus, Francisco de Assis e o próprio Schweitzer, que, um dia, resolveu deixar o conforto da Europa civilizada, para enfrentar a selva africana, onde foi cuidar dos negros famintos e doentes. Mas a gente costuma valorizar os homens de ação, os homens práticos que fazem o progresso material e as guerras. O ato da renúncia é mais louvável do que o ato do apego. O medo que estamos sentindo, freqüentemente, é o medo das nossas perdas. Perda da mocidade, do dinheiro, saúde, perda do prestígio, do amor, do emprego, das amizades.
Renunciar é, sobre tudo, um ato de coragem. E poucos conseguem praticá-lo. É fácil apegar-se. Difícil é desapegar-se. E eu estou, agora mesmo, me lembrando daquele encontro de Jesus com o moço rico, que desejava ir para o céu: Mestre, o que é necessário para alcançar a vida eterna? O rapaz possuía muitas propriedades, muito dinheiro e era religioso, cumprindo todos os mandamentos da lei mosaica: não mentia, não roubava, não caluniava, não pronunciava o nome de Deus em vão. No conceito dos homens, era um homem bom.
Jesus veio, então, com aquela recomendação que valeu por um difícil teste: dá o que tens a quem necessita e terás o paraíso. Aí o moço baixou a cabeça e saiu, envergonhado, sem dizer uma palavra. O preço do paraíso era muito alto. Renunciar aos bens, aos interesses mundanos, era impossível. Foi difícil formar um patrimônio; porém, mais difícil, ainda, seria renunciá-lo.
Não vamos interpretar o episódio ao pé da letra. A renúncia que Jesus queria era a renúncia ao apego, porque o apego é o que nos escraviza, é o que nos preocupa, é o que nos angustia, é o que nos torna infelizes, deprimidos, egoístas. Não é o ato da renúncia que importa. O que importa é o espírito da renúncia.
Você pode ter muitos bens e não ser apegado a eles, desde que se conscientize de que passam, de que nos chegam como empréstimo, porque chegará, um dia, em que teremos de abandoná-los. Ninguém é proprietário de nada, a não ser de sua própria consciência.
É difícil renunciar. Rico é aquele que é pobre de necessidade - escreveu um grande pensador. Parafraseando, diríamos: rico é aquele que é pobre de apegos, eis aí o grande heroísmo. Afinal, como devemos viver no mundo?
Paulo de Tarso tem a receita: viver como possuindo, nada tendo, com todos e sem ninguém.
| postado por Cristina Aiach em |
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